Verão
Fujo daquilo que não é belo, procuro-te, procuro os teus defeitos, porque a perfeição não é bela, é perfeita, e os defeitos são belos, porque são teus. Assim vou passando os dias, procurando-te mesmo depois de te encontrar, a vida passa sempre, segue o seu rumo, não me importo mais com tal, já não digo amo ou adoro-te a toda a hora, digo a verdade agora, que é amo-te, senão uma palavra apenas, que é um beijo, senão contacto físico, que é perder-te, senão tudo o que tenho.
A passagem do tempo rouba-nos primeiro o corpo do que a alma, por isso os velhos ainda conseguem amar, quem tem alma e um corpo bonito, tem quase tudo, quem apenas tem alma, tem verdade. Para te amar chega-me a alma, mas comecei por desejar o teu corpo bonito, percebi à muito que a vida nos oferece beleza e magia suficientes para tornar supérflua a beleza física, mas, quando às vezes fecho os olhos, sem ser para dormir,e sem qualquer pressa de os tornar a abrir,o nosso passado mais distante alegra-me. Recordo-me da primeira vez que te vi, do enquadramento perfeito de tudo, os teus olhos cruzaram os meus, estava frio e chuva e parecias meio desenquadrada, seguravas um pequeno livro na mão, descobrimos 3 ou 4 dias depois que só duas palavras do prefácio a chuva não tinha dissolvido, os nossos olhares quase se capturaram, ainda hoje não sei qual deles fugiu primeiro, coraste à chuva (talvez eu tenha corado também), começaste a andar mais depressa para apanhar um autocarro que passava por ti, tropeçaste no chão molhado, ajudei-te a levantar, a tua pele suave mas decidida e o teu corpo esculpido em infinitas unidades universais de belo eram absolutamente desarmantes, a chuva parecia deslizar pelo teu cabelo liso, usando-o como um eterno escorrega, quis declarar-me a cada um dos teus fios de cabelo naquela noite, a tua beleza pareceu-me avassaladora quando te dei a mão para te ajudar a levantar, olhaste-me com algo a que só posso chamar magia, e senti a tua respiração junto da minha, talvez tenha tremido um pouco, tinhas a mão esfarrapada e algumas gotas de sangue ainda vivo escorreram da tua mão para a minha, sorriste, e perdeste o autocarro. Sonhei contigo tantas vezes antes de te beijar, e muito mais vezes ainda depois de te amar, nunca sonhei no entanto algo tão belo e avassalador como tudo naquela noite, por isso foi perfeita, pelo menos mais perfeita do que eu alguma vez consegui imaginar.
A beleza é o tudo o que é importa mundo, é aquilo porque vale a pena lutar, é o que falta descobrir, e o que já esquecemos também. Belas são as ondas do mar antes de se desfazerem em espuma, bela é a espuma que fazem, belo é o absoluto azul do mar, belas são as cores vivas dos corais, belas são as covinhas que fazes nas bochechas quando quase sorris, belo é quando sorris, bela é a vida, contigo. Lembro-me do nosso primeiro beijo, e da nossa primeira discussão, da primeira vez que fizemos amor, e do primeiro momento em que mesmo sem te dizer ainda, soube que era contigo que queria continuar a acordar de manhã, lembro-me de quando apanhaste uma pneumonia e passámos duas semanas, horas e mais horas debaixo dos lençóis, os dois, com os aquecedores ligados e a televisão desligada, lembro-me da primeira viagem de carro que fizemos juntos, da minha falta de jeito para mudar um pneu que se furou no segundo dia da viagem e dos teus gritos estridentes e de como me abraçaste roubando-me até espaço para o ar passar quando saímos daquela avioneta que parecia ainda ter combatido nas duas Grandes Guerras e que mesmo assim fazia piruetas inverosímeis, lembro-me de te ver chorar, de te abraçar, de te fazer cócegas, de te ver rir sem motivo, e a penteares o cabelo à noite, de te virar as costas, de ser injusto contigo por vezes, e de no quase silêncio da noite, sem roupas, e sem luz, escutar a tua respiração, calma, bela e cheia de algo a que por não ter nome chamo hoje de amor, e partilhar assim a vida e o sono contigo. Tudo isto é vida passada, memórias apenas, e que é o amor que construímos, se não um gigante pedaço de tempo, recordações, vida e saudade, emoldurado e guardado dentro de nós os dois.
Assim, enquanto tiver memória, irei recordar deste último dia a forma como enganaste a dor e sorriste por mim, e quando a memória também me deixar, e te perder, apenas sei que irei amar-te de novo um dia, não sei quando ainda, mas se o tempo é mesmo infinito, para sempre é demasiado tempo para ficar longe de ti.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
domingo, 16 de maio de 2010
Quatro Estações
Primavera
Fazes-me sentir bem, fazes-me querer ver flores a desabrochar e gostar das pétalas, fazes-me querer dar-te a lua todas as noites, preenchida ou em quarto minguante, fazes-me querer assaltar o tempo,assaltava-o para ter mais 10 minutos contigo, fazes-me parecer louco, querer ser louco, louco para quem me vê e não sabe, apaixonado por ti, que sabes, e mais que isso apetece-me olhar-te e não dizer nada, dizem por aí que estar parado e apenas olhar é perda de tempo, mas eles não te conhecem meu amor, perda de tempo é estar longe de ti, longe de ti sinto-me uma virgula que separa dois números inteiros ou duas palavras que querem estar juntas, uma virgula é um ponto final com uma lágrima de atrelado, ver-te sorrir seca qualquer lágrima.
E antes de me apetecer tudo, apeteceu-me que gostasses de mim também, foram tumultuosos os tempos em que queria apenas que reparasses em mim, que percebesses que gostava de ti e que por efeito directo logo te apaixonasses por mim, eu soube que gostava de ti quando uma vez aproximaste os teus cabelos encaracolados em espiral do meu pescoço e disseste algo bonito( não interessa o quê agora, quase tudo é belo na primavera), a partir daí queria andar de mãos dadas contigo, porque de mão dada ao teu lado qualquer sítio é alado, queria ver-te adormecer e a acordar a também, a espreguiçares o corpo quando acordasses, e a perguntares se o que estava dentro daquela caixa da pastelaria, eram mesmo as tuas miniaturas de chocolate preferidas, queria fazer uma linha imaginária que unisse todos os sinais do teu corpo, não para tentar adivinhação, mas apenas porque sim, mas nada dizia, pensava que eu era como a noite que não tem que dizer que nos roubou a luz para olharmos para as estrelas, ou que tu eras como uma borboleta de asas vestigiais que percebe tudo apenas porque sim, enganei-me, as tuas asas não eram faz de conta.
Sabes talvez cada um de nós seja mesmo um mero ponto quase insignificante em toda a grandeza do universo, mas pelo menos contigo faço uma linha, e tudo o que existe são pontos, linhas e amor, amor são as tulipas, as joaninhas, o pôr do Sol e as ervas aromáticas, são os outros e tudo o que eles têm, os pontos somos nós, e a linha é a aresta do paralelepípedo.
Tudo parece tão belo, tudo se enquadra, percebo agora os desenhos das crianças, melhor que toda a pintura abstracta, desejo aquilo que os meus olhos vêem, e aquilo que eles não vêem mas dizem,e o que eles não dizem também, não me lembro de eles já terem dito que tens cócegas na barriga, percebo as cartas de amor, escrevi-te uma anteontem, está debaixo da tua almofada.
E quando escondidos debaixo dos lençóis, ou fora deles, mas algures, fazemos amor, sei que te amo, não mais do que quando estávamos os dois vestidos ainda, ou quando te vejo a fazer exercícios de matemática, ou quando inventamos constelações( lembraste do paralelepípedo?) mas não menos também, porque as flores têm pétalas coloridas, as borboletas têm asas vistosas, os pavões rabos em forma de leque, e as cacatuas bicos cor de marfim, e nós temos alma, carne e palavras bonitas.
Sei que vai ser para sempre, enfrento contigo todo o tempo que o tempo nos quiser tirar, e a “Lacuna”* também, se nos vier assaltar,vamos conquistar o amanhã com pistolas de água, junto de ti tudo é belo, e o belo nem sempre é fácil, mas faz-nos esquecer que a chuva pode molhar, que o frio pode constipar, que as abelhas podem picar, e a verdade sabes é que isso nem lhe rouba a lógica, sabe bem abraçar-te já ensopada, com as gotas de chuva a caírem sobre nós, e beijar-te depois mesmo constipada e de nariz entupido e levar-te o pequeno almoço à cama no dia a seguir( para a semana é a tua vez), e vais querer bater-me por isto mas abraçar-te enquanto choramingas que uma abelha assassina te fez um hematoma gigante no braço também tem o seu encanto, porque o amor não faz nada parecer belo e insano, mas ser belo, objectivo e nosso, aquilo que era apenas triste quando éramos dois pontos. Não quero voltar a ser uma vírgula.
*Referência directa do autor ao filme "O brilho Eterno de uma Mente Vazia"
Fazes-me sentir bem, fazes-me querer ver flores a desabrochar e gostar das pétalas, fazes-me querer dar-te a lua todas as noites, preenchida ou em quarto minguante, fazes-me querer assaltar o tempo,assaltava-o para ter mais 10 minutos contigo, fazes-me parecer louco, querer ser louco, louco para quem me vê e não sabe, apaixonado por ti, que sabes, e mais que isso apetece-me olhar-te e não dizer nada, dizem por aí que estar parado e apenas olhar é perda de tempo, mas eles não te conhecem meu amor, perda de tempo é estar longe de ti, longe de ti sinto-me uma virgula que separa dois números inteiros ou duas palavras que querem estar juntas, uma virgula é um ponto final com uma lágrima de atrelado, ver-te sorrir seca qualquer lágrima.
E antes de me apetecer tudo, apeteceu-me que gostasses de mim também, foram tumultuosos os tempos em que queria apenas que reparasses em mim, que percebesses que gostava de ti e que por efeito directo logo te apaixonasses por mim, eu soube que gostava de ti quando uma vez aproximaste os teus cabelos encaracolados em espiral do meu pescoço e disseste algo bonito( não interessa o quê agora, quase tudo é belo na primavera), a partir daí queria andar de mãos dadas contigo, porque de mão dada ao teu lado qualquer sítio é alado, queria ver-te adormecer e a acordar a também, a espreguiçares o corpo quando acordasses, e a perguntares se o que estava dentro daquela caixa da pastelaria, eram mesmo as tuas miniaturas de chocolate preferidas, queria fazer uma linha imaginária que unisse todos os sinais do teu corpo, não para tentar adivinhação, mas apenas porque sim, mas nada dizia, pensava que eu era como a noite que não tem que dizer que nos roubou a luz para olharmos para as estrelas, ou que tu eras como uma borboleta de asas vestigiais que percebe tudo apenas porque sim, enganei-me, as tuas asas não eram faz de conta.
Sabes talvez cada um de nós seja mesmo um mero ponto quase insignificante em toda a grandeza do universo, mas pelo menos contigo faço uma linha, e tudo o que existe são pontos, linhas e amor, amor são as tulipas, as joaninhas, o pôr do Sol e as ervas aromáticas, são os outros e tudo o que eles têm, os pontos somos nós, e a linha é a aresta do paralelepípedo.
Tudo parece tão belo, tudo se enquadra, percebo agora os desenhos das crianças, melhor que toda a pintura abstracta, desejo aquilo que os meus olhos vêem, e aquilo que eles não vêem mas dizem,e o que eles não dizem também, não me lembro de eles já terem dito que tens cócegas na barriga, percebo as cartas de amor, escrevi-te uma anteontem, está debaixo da tua almofada.
E quando escondidos debaixo dos lençóis, ou fora deles, mas algures, fazemos amor, sei que te amo, não mais do que quando estávamos os dois vestidos ainda, ou quando te vejo a fazer exercícios de matemática, ou quando inventamos constelações( lembraste do paralelepípedo?) mas não menos também, porque as flores têm pétalas coloridas, as borboletas têm asas vistosas, os pavões rabos em forma de leque, e as cacatuas bicos cor de marfim, e nós temos alma, carne e palavras bonitas.
Sei que vai ser para sempre, enfrento contigo todo o tempo que o tempo nos quiser tirar, e a “Lacuna”* também, se nos vier assaltar,vamos conquistar o amanhã com pistolas de água, junto de ti tudo é belo, e o belo nem sempre é fácil, mas faz-nos esquecer que a chuva pode molhar, que o frio pode constipar, que as abelhas podem picar, e a verdade sabes é que isso nem lhe rouba a lógica, sabe bem abraçar-te já ensopada, com as gotas de chuva a caírem sobre nós, e beijar-te depois mesmo constipada e de nariz entupido e levar-te o pequeno almoço à cama no dia a seguir( para a semana é a tua vez), e vais querer bater-me por isto mas abraçar-te enquanto choramingas que uma abelha assassina te fez um hematoma gigante no braço também tem o seu encanto, porque o amor não faz nada parecer belo e insano, mas ser belo, objectivo e nosso, aquilo que era apenas triste quando éramos dois pontos. Não quero voltar a ser uma vírgula.
*Referência directa do autor ao filme "O brilho Eterno de uma Mente Vazia"
terça-feira, 27 de abril de 2010
Quatro Estações
Inverno
Não voltarei a amar,dizem por aí para amar o próximo, para amar os passarinhos do jardim, eu amava-te a ti, não às borboletas, elas amam-se umas às outras, não precisam de mim,seria caricato.
O amor é faz de conta, faz o frio parecer quente, faz Janeiro parecer Junho, e ao mesmo tempo gostar de Janeiro, mas o frio é sempre frio, agora quando as minhas mãos tremerem de frio volto para junto da lareira, não quero apanhar uma constipação. O amor é como o álcool e as drogas, mas quando compramos drogas são nossas, o amor como não se vende, é sempre emprestado, e não quero que me o voltem a pedir de volta, viva o álcool e as drogas, que quando acabam se compram mais, com o amor não estamos sozinhos, mas vamos acabar sozinhos. Nem o sexo precisa de amor, não voltarei a confundir fisiologia com filosofia e que se lixe a oxitocina.
Para quê andar de mão dada, à muito que aprendi a andar sozinho, andar de mão dada na rua só para dizer ao mundo que gostava de ti, é ridículo, só o amor nos faz esquecer isso, e amar é isso mesmo, parecer sempre feliz, porque o ridículo, é feliz. A natureza nunca precisou de amor, apenas de relações de conveniência, e por nunca tentar parecer feliz, alegra-nos quando a observamos, o leão é o rei da selva, a viúva negra come o macho no final, as flores tentam ser bonitas, vivas e elegantes para atrair quantas abelhas poderem, algumas comem-nas mesmo (penso que nunca te tinha chamado planta carnívora).
Os dias parecem passar mais devagar agora, o que quer dizer que me roubavas tempo, parece que cada uma das farpas que me cravaste no coração precisa agora de tempo para cicatrizar, felizmente que estudei em fisiologia que o músculo cardíaco quando morre, apenas cicatriza e não recupera jamais, não quero voltar a ter um coração funcionante, pelo menos não para amar, o amor é a coisa mais insignificante do mundo, porque não se vê, até as estrelas que estão tão longe e que nós nunca iremos tocar, não arranjam desculpas e mostram-se todas as noites, porque em nenhuma noite todo o céu é nublado, e os cloroplastos mesmo sendo pequeninos e trapalhões não se escondem do microscópio, mas ao amor, a esse ninguém o vê.
Sabes, sinto-me como se durante tanto tempo eu tivesse sido um número inteiro, e tu a raiz quadrada que eu amava, mas tu executaste a raiz, e eu nunca mais serei um número inteiro agora, sobrevivo amparado por uma vírgula, mentiste quando disseste que seria para sempre, mentiste de cada vez que me beijaste, porque sempre que te beijava eu sabia que era para sempre, as mentiras andam sempre de mão dada com o amor, enquanto duram chama-as de certezas, quando acabam serão certezas para outros que apareçam, o amor nunca tem dúvidas, porque o amor não é cego, é estúpido.
Alegra-me, alegra-me saber que nunca saberás se algum dia chorei por ti quando ouvi a tua música preferida dar na rádio ou quando ouço aquela voz metálica a dizer as paragens do comboio , nem se passei horas apenas à espera de um telefonema teu, nunca saberás se alguma vez mudei a televisão de canal porque o filme que estava a dar me fazia pensar em ti, e se depois desliguei a televisão porque a publicidade do outro canal me fazia lembrar-te a ti a mudar um pneu, e se então abri a janela do quarto, mas logo voltei a fechá-la porque os caracóis da minha vizinha do 2º andar me faziam ter saudades dos teus, e se então finalmente adormeci, para logo depois acordar de um sonho em que eu e tu éramos duas borboletas gigantes,ou pelo menos tínhamos asas, e se quando ainda meio atordoado olhei para o relógio, era exactamente a hora a que o teu despertador costumava tocar. E nunca o saberás, não por ser a minha forma camuflada de orgulho manter-te sem saber, mas apenas porque nunca vais perguntar. Talvez minta.
Não voltarei a amar,dizem por aí para amar o próximo, para amar os passarinhos do jardim, eu amava-te a ti, não às borboletas, elas amam-se umas às outras, não precisam de mim,seria caricato.
O amor é faz de conta, faz o frio parecer quente, faz Janeiro parecer Junho, e ao mesmo tempo gostar de Janeiro, mas o frio é sempre frio, agora quando as minhas mãos tremerem de frio volto para junto da lareira, não quero apanhar uma constipação. O amor é como o álcool e as drogas, mas quando compramos drogas são nossas, o amor como não se vende, é sempre emprestado, e não quero que me o voltem a pedir de volta, viva o álcool e as drogas, que quando acabam se compram mais, com o amor não estamos sozinhos, mas vamos acabar sozinhos. Nem o sexo precisa de amor, não voltarei a confundir fisiologia com filosofia e que se lixe a oxitocina.
Para quê andar de mão dada, à muito que aprendi a andar sozinho, andar de mão dada na rua só para dizer ao mundo que gostava de ti, é ridículo, só o amor nos faz esquecer isso, e amar é isso mesmo, parecer sempre feliz, porque o ridículo, é feliz. A natureza nunca precisou de amor, apenas de relações de conveniência, e por nunca tentar parecer feliz, alegra-nos quando a observamos, o leão é o rei da selva, a viúva negra come o macho no final, as flores tentam ser bonitas, vivas e elegantes para atrair quantas abelhas poderem, algumas comem-nas mesmo (penso que nunca te tinha chamado planta carnívora).
Os dias parecem passar mais devagar agora, o que quer dizer que me roubavas tempo, parece que cada uma das farpas que me cravaste no coração precisa agora de tempo para cicatrizar, felizmente que estudei em fisiologia que o músculo cardíaco quando morre, apenas cicatriza e não recupera jamais, não quero voltar a ter um coração funcionante, pelo menos não para amar, o amor é a coisa mais insignificante do mundo, porque não se vê, até as estrelas que estão tão longe e que nós nunca iremos tocar, não arranjam desculpas e mostram-se todas as noites, porque em nenhuma noite todo o céu é nublado, e os cloroplastos mesmo sendo pequeninos e trapalhões não se escondem do microscópio, mas ao amor, a esse ninguém o vê.
Sabes, sinto-me como se durante tanto tempo eu tivesse sido um número inteiro, e tu a raiz quadrada que eu amava, mas tu executaste a raiz, e eu nunca mais serei um número inteiro agora, sobrevivo amparado por uma vírgula, mentiste quando disseste que seria para sempre, mentiste de cada vez que me beijaste, porque sempre que te beijava eu sabia que era para sempre, as mentiras andam sempre de mão dada com o amor, enquanto duram chama-as de certezas, quando acabam serão certezas para outros que apareçam, o amor nunca tem dúvidas, porque o amor não é cego, é estúpido.
Alegra-me, alegra-me saber que nunca saberás se algum dia chorei por ti quando ouvi a tua música preferida dar na rádio ou quando ouço aquela voz metálica a dizer as paragens do comboio , nem se passei horas apenas à espera de um telefonema teu, nunca saberás se alguma vez mudei a televisão de canal porque o filme que estava a dar me fazia pensar em ti, e se depois desliguei a televisão porque a publicidade do outro canal me fazia lembrar-te a ti a mudar um pneu, e se então abri a janela do quarto, mas logo voltei a fechá-la porque os caracóis da minha vizinha do 2º andar me faziam ter saudades dos teus, e se então finalmente adormeci, para logo depois acordar de um sonho em que eu e tu éramos duas borboletas gigantes,ou pelo menos tínhamos asas, e se quando ainda meio atordoado olhei para o relógio, era exactamente a hora a que o teu despertador costumava tocar. E nunca o saberás, não por ser a minha forma camuflada de orgulho manter-te sem saber, mas apenas porque nunca vais perguntar. Talvez minta.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Transcriptase Reversa
Transcriptase Reversa
“Era noite e estávamos sozinhos numa rua que parecia deserta,olhavas-me, talvez triste, apenas triste, retirava-te decidido algo do ventre, senti um impulso no braço,as nossas línguas desenrolavam-se lentamente, sentia a tua saliva na minha boca, ia desaparecendo como se lá nunca tivesse estado, a tua língua largava calmamente a minha boca fazendo-me cócegas nos lábios ao passar, e eu incrédulo olhava-te agora sabendo que te ia beijar, e não te conhecia.”
E assim começa, ou acaba, já não sei bem no que acreditar, a história de um amor possível, entre quem não sabia amar.
“ Estávamos sentados no café, sabia que te ia beijar a seguir, mas o a seguir estava cada vez mais longe, as nossas mãos desenlaçaram-se e sentia agora um gosto amargo a café na boca, tínhamos duas chávenas de café vazias em cima da nossa mesa, e íamos tendo uma conversa meio estranha sobre uma amiga tua, que aparentemente tinha morrido apunhalada, a certa altura chamei-te Teresa, e assim fiquei a saber o teu nome, pensava que talvez tudo fosse um sonho, enquanto o café me queimava os lábios”
“Um arrepio percorria-me o corpo agora, e também os mamilos me ardiam um pouco, seguravas na mão um saco com o que me parecia ser um vestido amarelo, enquanto o ar frio da rua nos batia no rosto. Estávamos dentro de uma loja, continuavas com o saco na mão e dirigíamo-nos agora para a caixa da loja caminhando ao contrário, ao consumares a compra parecias distante, distante como nunca mulher alguma parece quando consuma, eu discutia contigo para te oferecer o vestido, o que me pareceu estranho, aliás ou estava completamente embasbacado por ti e não sabia, ou então algo de bastante estranho se passava, especialmente quando ouvi a senhora da caixa dizer vigorosamente 129 euros e 90 cêntimos, sempre fui um bocado sovina nessas coisas, o vestido amarelo cobria-te agora parcialmente o corpo enquanto te espreitava na porta do provador, não te favorecia especialmente, mas o que me saiu dos lábios foi “Nenhum tecido que te esconda a pele pode ser bonito, mas esse é o melhor de entre os razoáveis”. Desentrelaçaste a tua mão da minha e foste experimentá-lo, reparei naquele vestido escondido entre tantos outros, só para isso uma loja pode ter tantos vestidos, para se esconderem uns aos outros, peguei naquele que daqui a pouco carregarias num saco, e disse que tinhas que o experimentar, não sei porque o fiz, saíamos agora da loja, com um sorriso cúmplice e mãos entrelaçadas.”
“Estávamos sentados num daqueles baloiços de jardim, estávamos nus, sentia-me meio envergonhado e excitado, ao ver os teus contornos que desconhecia, libertos das roupas que nos fazem imaginar, fitava-te e parecias descontraída, feliz, liberta, cúmplice, como se por amor perdesses o pudor, era noite cerrada e há nossa frente apenas 3 vultos, o meu, o teu, e um outro, parecia trémulo o outro, e parecia ostentar algo como um largo chapéu que o distinguia, ondulando com a brisa da noite, mas tudo é tão igual na escuridão, beijávamo-nos incessantemente agora, mordiscava-te os lábios, os lóbulos das orelhas, os contornos dos ombros e aquela fina camada de pele que cobre as falanges dos dedos, gemíamos os dois enquanto fazia-mos amor, rebolávamos na relva enquanto o fazíamos, sentia um desejo profundo de ti, de controlar o meu corpo, as minhas palavras, a minha saliva, e sentia um ardor no peito que me fazia esquecer tudo o resto, sorrias de forma genuína e ias percorrendo o meu corpo com os lábios, paraste nos meus mamilos e trincaste-os repetidamente, havia um candeeiro no jardim, meio fraco, meio distante, mas que te iluminava timidamente a pele morena, toda ela, que a fazia contrastar com o verde da relva e o branco das margaridas que lá habitavam, era noite sim, mas tu estavas viva, tão viva, e eu também sonhava estar. Enquanto te apertava o sutiã e te vestia o top, olhavas fixamente para mim, com as faces rubras agora, e com um meio sorriso e olhar expectante, sentia-te nervosa, ansiosa, como se não tivesses a certeza de gostar o bastante de mim para o que íamos fazer, de não me conheceres o bastante não sei, ou se o que sentias por mim era correspondido, como se os sentimentos ainda pudessem importar alguma coisa, bem ou então estavas apenas nervosa por estarmos prestes a ficar nus e a fazê-lo num jardim, meio recatado e com margaridas no chão, mas sem persianas para correr ou uma porta para fechar. E agora sentados, vestidos desta vez, no mesmo baloiço que experimentaríamos nus daqui a pouco, beijei-te e disse que te amava, há nossa frente continuavam três vultos, tentava em vão olhar para trás, mas não conseguia, como se o tempo não fosse mais meu, de qualquer forma não poderia estar ali mais ninguém, por certo teríamos olhado enquanto o tempo foi nosso, e assim, recordando o daqui a pouco, rezava baixinho para gostar de ti”
“Estávamos num balão de ar quente a talvez uma centena de metros do chão, parecíamos felizes, eu estava agarrado a ti, com as mãos entrelaçadas sobre as tuas clavículas e ia-te beijando os cabelos, nunca tinha reparado neles como agora, desejava poder enrolá-los nos meus dedos e puxá-los um pouco, numa demonstração instintiva e banal que podia bem ser de amor, louvá-los um a um se para isso tivesse tempo, ou então, apenas trincá-los. Bem, mas mais que tudo isso tinha um terrível medo de alturas e o balão ia oscilando ao sabor do vento, pelo que provavelmente ia agarrado a ti para disfarçar o medo que sentia, como se, qual pássaro alado gigante, me pudesses salvar das leis da gravidade, se um dos mil devaneios que agora me passavam pela cabeça se concretizasse, sim não são só vocês que têm esse comportamento meio infantil e sem lógica aparente, só que nós normalmente recusamos admiti-lo, temos talvez vergonha do admitir, e então beijamo-vos os cabelos.Beijaste-me, enrolas-te os teus braços no meu pescoço, abriste os braços e fixaste-me o olhar, por impulso talvez, segurei-te pela cintura e fiz com que tirasses os pés da base do balão. Observávamos agora a vida em ponto pequeno lá em baixo, tinha a mão esquerda esfarrapada, e de vez em quando, uma gota de sangue parecia subir lá de baixo, de onde a vida nós apreciávamos, e era devolvida à minha mão ensanguenta e houve uma vez em que tu me seguraste na mão ensanguentada e lhe sugaste o sangue, não sei bem porquê um arrepio percorria-me a espinha, às vezes a vida parece algo demasiado pequeno para valer a pena, era assim que me sentia lá em cima, em cima de tudo o que alguma vez irei ter, sabia agora que tu eras a única que realmente importava, desejei dizer-to naquele momento, mas não disse, parecia demasiado compenetrado a olhar para baixo, como se procurasse ver alguém assim em ponto muito pequenino, por vezes os meus olhos saltavam da paisagem para ti, e dizia que te amava, lá de baixo nada me dizia nada, nada era meu, afinal, quanto mais de cima vemos, menos temos.Estávamos a perder altitude quando reparei numa casa com um jardim manchado de branco, parecias distante, acenaste afirmativamente, disse-te que seria bom irmos lá os dois juntos dar uma volta, só nós os dois, e agora que continuamos a perder altitude as manchas brancas dividem-se em minúsculas margaridas, seguro com toda a força uma das cordas do balão com as mãos, sinto-me tonto e desequilibrado, tu sorris, um solavanco, e aterrámos."
“Estamos estendidos na areia com a respiração ofegante, olhamo-nos, mas não dizemos nada, e sorrimos, desta vez, estamos vestidos, pouco vestidos,muito molhados, mas vestidos. O Sol sobe lá longe, lentamente sobre o mar, anunciando o inicio do fim da tarde, nós continuávamos deitados na areia a tremelicar de frio, meio abraçados, cúmplices, enquanto os últimos raios de Sol hesitavam em aquecer-nos,sorris e dizes que não, pergunto se te magoaste, magoo-me um pouco mas não digo nada, sinto-me a cair na areia, por um instante vejo tudo à roda. Corríamos ao contrário mar adentro, em direcção a uma onda gigante que parecia fugir de nós, e agora parados, no meio da espuma do mar, beijávamo-nos como se fosse a primeira vez, fitávamo-nos, e eu tinha vontade de te beijar de novo, saudades que tu soubesses que me ias beijar, desejo que os meus mamilos ardessem de novo, e que me voltasses a sugar o sangue da minha mão magoada, saudades de te ver misturada com as margaridas do jardim, mas os meus olhos pareciam estupidamente longe da vida, longe de ti. Levava-te em braços e ia caminhando ao contrário para fora da água do mar e já fora do mar, dizias para te largar que a água estava fria, mas não era isso que os teus olhos, e que a tua expressão diziam, só vocês conseguem fazer isso assim. O Sol continuava a subir calmamente no céu, parecendo que até ele queria por uma vez fugir da escuridão, aquecendo-nos agora a pele ainda virgem de mar, enquanto nós, sentados na areia ia-mos vendo as ondas sempre iguais que o mar traz e depois leva, como se existissem apenas para os apaixonados as verem, beijei-te o ombro aquecido pelo Sol e mordisquei-te a orelha, sorrias e olhavas-me de uma forma que eu só podia sonhar em retribuir,dizias que te fazia cócegas, coloquei-o na tua barriga desnudada, peguei talvez meio ao acaso num caranguejo bebé que parecia fugir do mar, sabia agora que estava apaixonado por ti ”
“ Brotavam-me lágrimas dos olhos, chovia torrencialmente e era noite, estava ajoelhado sobre uma mulher de tez clara que não conhecia, parecia soluçar de dor e pânico enquanto os olhos dela se abriam, e a mancha de sangue que lhe ensanguentava todo o vestido amarelo ia desaparecendo, a sua pele ia ganhando um pouco de cor à medida que o sangue e a vida lhe eram devolvidos,tentou sorrir, beijou-me os lábios, sussurrou-me ao ouvido algo como “ para quê esperar?”, um qualquer carro aproximava-se no horizonte em marcha atrás, não abrandava, vi-te a ti pela primeira vez, ias ao volante daquele carro cinzento já velho, o teu olhar estava ausente, vi o chapéu dela a voar para longe, passaste-lhe por cima, uma dor lancinante percorria-me agora o coração”
Voltavam a correr-me lágrimas pelo rosto, percebo agora que a memória só serve para me odiar, vi-te desvanecer à minha frente com a faca que te cravei no ventre, continuavas a olhar-me, apenas triste, segurei-te para não caíres no chão “para perceber tive que me apaixonar” foram as únicas palavras que te consegui dizer, sorriste, como se já nada mais valesse a pena e vi os teus olhos a fecharem, vencidos pelas próprias pálpebras, pousei-te lentamente no chão, a rua continuava deserta, e matei-me, ou pelo menos tentei, não por ela, mas por ti.
“Era noite e estávamos sozinhos numa rua que parecia deserta,olhavas-me, talvez triste, apenas triste, retirava-te decidido algo do ventre, senti um impulso no braço,as nossas línguas desenrolavam-se lentamente, sentia a tua saliva na minha boca, ia desaparecendo como se lá nunca tivesse estado, a tua língua largava calmamente a minha boca fazendo-me cócegas nos lábios ao passar, e eu incrédulo olhava-te agora sabendo que te ia beijar, e não te conhecia.”
E assim começa, ou acaba, já não sei bem no que acreditar, a história de um amor possível, entre quem não sabia amar.
“ Estávamos sentados no café, sabia que te ia beijar a seguir, mas o a seguir estava cada vez mais longe, as nossas mãos desenlaçaram-se e sentia agora um gosto amargo a café na boca, tínhamos duas chávenas de café vazias em cima da nossa mesa, e íamos tendo uma conversa meio estranha sobre uma amiga tua, que aparentemente tinha morrido apunhalada, a certa altura chamei-te Teresa, e assim fiquei a saber o teu nome, pensava que talvez tudo fosse um sonho, enquanto o café me queimava os lábios”
“Um arrepio percorria-me o corpo agora, e também os mamilos me ardiam um pouco, seguravas na mão um saco com o que me parecia ser um vestido amarelo, enquanto o ar frio da rua nos batia no rosto. Estávamos dentro de uma loja, continuavas com o saco na mão e dirigíamo-nos agora para a caixa da loja caminhando ao contrário, ao consumares a compra parecias distante, distante como nunca mulher alguma parece quando consuma, eu discutia contigo para te oferecer o vestido, o que me pareceu estranho, aliás ou estava completamente embasbacado por ti e não sabia, ou então algo de bastante estranho se passava, especialmente quando ouvi a senhora da caixa dizer vigorosamente 129 euros e 90 cêntimos, sempre fui um bocado sovina nessas coisas, o vestido amarelo cobria-te agora parcialmente o corpo enquanto te espreitava na porta do provador, não te favorecia especialmente, mas o que me saiu dos lábios foi “Nenhum tecido que te esconda a pele pode ser bonito, mas esse é o melhor de entre os razoáveis”. Desentrelaçaste a tua mão da minha e foste experimentá-lo, reparei naquele vestido escondido entre tantos outros, só para isso uma loja pode ter tantos vestidos, para se esconderem uns aos outros, peguei naquele que daqui a pouco carregarias num saco, e disse que tinhas que o experimentar, não sei porque o fiz, saíamos agora da loja, com um sorriso cúmplice e mãos entrelaçadas.”
“Estávamos sentados num daqueles baloiços de jardim, estávamos nus, sentia-me meio envergonhado e excitado, ao ver os teus contornos que desconhecia, libertos das roupas que nos fazem imaginar, fitava-te e parecias descontraída, feliz, liberta, cúmplice, como se por amor perdesses o pudor, era noite cerrada e há nossa frente apenas 3 vultos, o meu, o teu, e um outro, parecia trémulo o outro, e parecia ostentar algo como um largo chapéu que o distinguia, ondulando com a brisa da noite, mas tudo é tão igual na escuridão, beijávamo-nos incessantemente agora, mordiscava-te os lábios, os lóbulos das orelhas, os contornos dos ombros e aquela fina camada de pele que cobre as falanges dos dedos, gemíamos os dois enquanto fazia-mos amor, rebolávamos na relva enquanto o fazíamos, sentia um desejo profundo de ti, de controlar o meu corpo, as minhas palavras, a minha saliva, e sentia um ardor no peito que me fazia esquecer tudo o resto, sorrias de forma genuína e ias percorrendo o meu corpo com os lábios, paraste nos meus mamilos e trincaste-os repetidamente, havia um candeeiro no jardim, meio fraco, meio distante, mas que te iluminava timidamente a pele morena, toda ela, que a fazia contrastar com o verde da relva e o branco das margaridas que lá habitavam, era noite sim, mas tu estavas viva, tão viva, e eu também sonhava estar. Enquanto te apertava o sutiã e te vestia o top, olhavas fixamente para mim, com as faces rubras agora, e com um meio sorriso e olhar expectante, sentia-te nervosa, ansiosa, como se não tivesses a certeza de gostar o bastante de mim para o que íamos fazer, de não me conheceres o bastante não sei, ou se o que sentias por mim era correspondido, como se os sentimentos ainda pudessem importar alguma coisa, bem ou então estavas apenas nervosa por estarmos prestes a ficar nus e a fazê-lo num jardim, meio recatado e com margaridas no chão, mas sem persianas para correr ou uma porta para fechar. E agora sentados, vestidos desta vez, no mesmo baloiço que experimentaríamos nus daqui a pouco, beijei-te e disse que te amava, há nossa frente continuavam três vultos, tentava em vão olhar para trás, mas não conseguia, como se o tempo não fosse mais meu, de qualquer forma não poderia estar ali mais ninguém, por certo teríamos olhado enquanto o tempo foi nosso, e assim, recordando o daqui a pouco, rezava baixinho para gostar de ti”
“Estávamos num balão de ar quente a talvez uma centena de metros do chão, parecíamos felizes, eu estava agarrado a ti, com as mãos entrelaçadas sobre as tuas clavículas e ia-te beijando os cabelos, nunca tinha reparado neles como agora, desejava poder enrolá-los nos meus dedos e puxá-los um pouco, numa demonstração instintiva e banal que podia bem ser de amor, louvá-los um a um se para isso tivesse tempo, ou então, apenas trincá-los. Bem, mas mais que tudo isso tinha um terrível medo de alturas e o balão ia oscilando ao sabor do vento, pelo que provavelmente ia agarrado a ti para disfarçar o medo que sentia, como se, qual pássaro alado gigante, me pudesses salvar das leis da gravidade, se um dos mil devaneios que agora me passavam pela cabeça se concretizasse, sim não são só vocês que têm esse comportamento meio infantil e sem lógica aparente, só que nós normalmente recusamos admiti-lo, temos talvez vergonha do admitir, e então beijamo-vos os cabelos.Beijaste-me, enrolas-te os teus braços no meu pescoço, abriste os braços e fixaste-me o olhar, por impulso talvez, segurei-te pela cintura e fiz com que tirasses os pés da base do balão. Observávamos agora a vida em ponto pequeno lá em baixo, tinha a mão esquerda esfarrapada, e de vez em quando, uma gota de sangue parecia subir lá de baixo, de onde a vida nós apreciávamos, e era devolvida à minha mão ensanguenta e houve uma vez em que tu me seguraste na mão ensanguentada e lhe sugaste o sangue, não sei bem porquê um arrepio percorria-me a espinha, às vezes a vida parece algo demasiado pequeno para valer a pena, era assim que me sentia lá em cima, em cima de tudo o que alguma vez irei ter, sabia agora que tu eras a única que realmente importava, desejei dizer-to naquele momento, mas não disse, parecia demasiado compenetrado a olhar para baixo, como se procurasse ver alguém assim em ponto muito pequenino, por vezes os meus olhos saltavam da paisagem para ti, e dizia que te amava, lá de baixo nada me dizia nada, nada era meu, afinal, quanto mais de cima vemos, menos temos.Estávamos a perder altitude quando reparei numa casa com um jardim manchado de branco, parecias distante, acenaste afirmativamente, disse-te que seria bom irmos lá os dois juntos dar uma volta, só nós os dois, e agora que continuamos a perder altitude as manchas brancas dividem-se em minúsculas margaridas, seguro com toda a força uma das cordas do balão com as mãos, sinto-me tonto e desequilibrado, tu sorris, um solavanco, e aterrámos."
“Estamos estendidos na areia com a respiração ofegante, olhamo-nos, mas não dizemos nada, e sorrimos, desta vez, estamos vestidos, pouco vestidos,muito molhados, mas vestidos. O Sol sobe lá longe, lentamente sobre o mar, anunciando o inicio do fim da tarde, nós continuávamos deitados na areia a tremelicar de frio, meio abraçados, cúmplices, enquanto os últimos raios de Sol hesitavam em aquecer-nos,sorris e dizes que não, pergunto se te magoaste, magoo-me um pouco mas não digo nada, sinto-me a cair na areia, por um instante vejo tudo à roda. Corríamos ao contrário mar adentro, em direcção a uma onda gigante que parecia fugir de nós, e agora parados, no meio da espuma do mar, beijávamo-nos como se fosse a primeira vez, fitávamo-nos, e eu tinha vontade de te beijar de novo, saudades que tu soubesses que me ias beijar, desejo que os meus mamilos ardessem de novo, e que me voltasses a sugar o sangue da minha mão magoada, saudades de te ver misturada com as margaridas do jardim, mas os meus olhos pareciam estupidamente longe da vida, longe de ti. Levava-te em braços e ia caminhando ao contrário para fora da água do mar e já fora do mar, dizias para te largar que a água estava fria, mas não era isso que os teus olhos, e que a tua expressão diziam, só vocês conseguem fazer isso assim. O Sol continuava a subir calmamente no céu, parecendo que até ele queria por uma vez fugir da escuridão, aquecendo-nos agora a pele ainda virgem de mar, enquanto nós, sentados na areia ia-mos vendo as ondas sempre iguais que o mar traz e depois leva, como se existissem apenas para os apaixonados as verem, beijei-te o ombro aquecido pelo Sol e mordisquei-te a orelha, sorrias e olhavas-me de uma forma que eu só podia sonhar em retribuir,dizias que te fazia cócegas, coloquei-o na tua barriga desnudada, peguei talvez meio ao acaso num caranguejo bebé que parecia fugir do mar, sabia agora que estava apaixonado por ti ”
“ Brotavam-me lágrimas dos olhos, chovia torrencialmente e era noite, estava ajoelhado sobre uma mulher de tez clara que não conhecia, parecia soluçar de dor e pânico enquanto os olhos dela se abriam, e a mancha de sangue que lhe ensanguentava todo o vestido amarelo ia desaparecendo, a sua pele ia ganhando um pouco de cor à medida que o sangue e a vida lhe eram devolvidos,tentou sorrir, beijou-me os lábios, sussurrou-me ao ouvido algo como “ para quê esperar?”, um qualquer carro aproximava-se no horizonte em marcha atrás, não abrandava, vi-te a ti pela primeira vez, ias ao volante daquele carro cinzento já velho, o teu olhar estava ausente, vi o chapéu dela a voar para longe, passaste-lhe por cima, uma dor lancinante percorria-me agora o coração”
Voltavam a correr-me lágrimas pelo rosto, percebo agora que a memória só serve para me odiar, vi-te desvanecer à minha frente com a faca que te cravei no ventre, continuavas a olhar-me, apenas triste, segurei-te para não caíres no chão “para perceber tive que me apaixonar” foram as únicas palavras que te consegui dizer, sorriste, como se já nada mais valesse a pena e vi os teus olhos a fecharem, vencidos pelas próprias pálpebras, pousei-te lentamente no chão, a rua continuava deserta, e matei-me, ou pelo menos tentei, não por ela, mas por ti.
domingo, 22 de novembro de 2009
A rapariga de gelo
Esta é provavelmente a história mais estranha que alguma vez aconteceu, ela era mesmo de gelo.
Bem, a história podia começar com um melancólico “há muito, muito tempo, quando ainda se escreviam cartas de amor”, ou com um expectante “ naquela manhã de Novembro, fria, muito fria, mas nunca suficientemente fria”, mas, e porque foi o que aconteceu, garanto-lhe caro leitor que foi assim que aconteceu, começa com a rapariga de gelo a caminhar pelas ruas da cidade de top, shorts e havaianas, numa normal tarde de Verão. E ela era mesmo de gelo, não se trata de qualquer tipo de hipérbole ou metáfora forçada, até as pernas dela, bem torneadas e realçadas pelos calções justinhos, bem eram lindas, mas eram de gelo, de um gelo profundamente límpido com um suave tom azulado, e o resto do seu corpo assim o era também, de gelo, e ousava andar ao Sol sem derreter, estranhamente os seus olhos eram verdes, de um verde absoluto e profundo, mas mesmo assim, frios, o belo também pode ser frio.
Ela tentava ser simpática para as outras pessoas, tentava sorrir ao senhor da mercearia, mas a simpatia deste ia-se quando as mãos deles se tocavam no momento dos trocos, causavam-lhe repulsa as mãos belas mas geladas dela, em contacto com as mãos macilentas, enrugadas, mas humanas dele. E sempre que tentando ser delicada e tocava ou beijava as faces de alguém, fazia com que se afastassem atrapalhadamente por causa daquele gelo que não compreendiam, um dia quando ainda era bem mais nova, nova apanhou-se sozinha com o vizinho engraçado do 3º esquerdo, e sussurrando-lhe ao ouvido disse, “gosto de ti”, e ele, que até se sentia atraído pelo belo corpo que ela já tinha, fugiu de medo e vergonha por causa daquela respiração gelada dela junto ao ouvido e pescoço dele, por causa de ela ser de gelo.
Bem, mas voltando à estranha história, ela caminhava em trajes curtos pela rua naquela tarde de Verão, recebendo olhares de soslaio de homens que com ela se iam cruzando na rua, e reparavam naquele corpo bem torneado e apetecível, embora de gelo, mas quando passavam realmente perto dela, quando um olhar se cruzava, tinham medo, mostravam esse medo, e desapareciam apreçados, enfim, que se pode mais esperar de um triste espécime que em tempos, orquestrou guerras sangrentas por causa de um belo par de pernas, mas depois não consegue abrir o coração a uma mulher (a rapariga de gelo tinha mesmo estes pensamentos sobre os palhaços que içavam a bandeira olhando de soslaio, e depois se afastavam amedrontados, não se tratando assim de qualquer subjectividade do autor no que ao complexo universo masculino diz respeito).
Assim eram todas as relações e afectos da rapariga de gelo, duravam um olhar atrevido ou um sussurrar gelado, também assim o fora com os seus pais, sim, todo o ser, por mais estranho, belo, diferente ou desdenhado que seja, resulta de dois prévios genomas, e o caso dela, belo ser humano feito de gelo, não fora, em momento algum, diferente. A sua mãe viveu até ela nascer, morreu de complicações no parto, fora essa a verdade que lhe contaram mais tarde, o pai fugiu ao vê-la, perfeita e bela ao nascer, mas já ai de gelo, e nunca mais fora visto pela cidade, talvez tenha ido para outra cidade, outro país, outro mundo onde não nascessem crianças de gelo e onde pudesse ter um filho com carne igual à sua, talvez seja agora um homem bem sucedido, e feliz por ter filhos que apresenta aos amigos, que talvez até já tenham namoradas e namorados de verdade, bem mas todas estas vidas imaginárias de seu pai, são os pensamentos que em tantos anos no orfanato lhe surgiram e ficaram.
No orfanato pouco lhe falavam também, as outras crianças tinham medo, as professoras e funcionárias tinham receio, passava tempos e tempos sozinha, era dispensada da maior parte das tarefas e de todas as brincadeiras, as amizades, namoricos e grandes paixões, vivia-as pelos livros e filmes antigos que preenchiam a velha biblioteca, sítio onde passara grande parte daqueles anos, apaixonou-se pelo James Dean e pelo Marlon Brando, chorou no final do Casablanca, quando ele por a amar tanto desistiu dela, e teria dado um par de estalos à Scarlett se pudesse, por ela quase sempre ter querido apenas o que nunca poderia ter no “E tudo o Vento Levou”.
Entre pensamentos confusos lá chegou ao agora seu lugar de trabalho, era telefonista numa multinacional qualquer, ligava para uma lista infinita de números para tentar impingir uma quantidade infinita de produtos de que quase ninguém precisava (sim é certo que nos apetece dar um tiro a essa gente chata que nos liga enquanto jantamos para nos tentar vender um colchão de água equipado com 3 tipos diferentes de massagem e revestido de um tecido com um suave aroma a alfazema ) mas foi o único emprego que arranjou onde ninguém tinha, nem por um instante apenas, que tocar nas suas mãos geladas ou sentir o gelo que emanava da sua respiração. Trabalhava numa sala ampla, sentada numa das muitas secretárias, em que se passava o dia a tentar impingir aquela lista infindável de coisas da empresa. Tinha a sua secretária empilhada de papéis, que quase lhe tapavam o obsoleto telefone com o qual passava o dia embrenhada, e recomeçara agora a marcar os números da imensa lista que tinha interrompido para ir almoçar, e pela qual ganhava à comissão.
Bem, e as conversas eram normalmente de um de dois tipos, ou:
-Boa tarde, estou a falar com a Sra. Olívia Cruz?
-É a própria, a que se deve o seu telefonema?
- Pois bem, estou a ligar-lhe para lhe falar da campanha de Verão da METROPOLIS, temos ofertas fantásticas a pensar em si.
-Nessa não me apanham mais, 4h fechada numa sala com o meu Armando a tentarem
impingir-nos um colchão de água por já sei lá eu quanto, devia ter lá marisco dentro ou o raio que o foda…Piiiiiiiii
Ou então…
-Boa Tarde, estou a falar com a Sra. Celestina Lopes?
- É a própria, de que se trata?
-Pois bem, estou a ligar-lhe para lhe falar da campanha de Verão da METROPOLIS, temos ofertas fantásticas a pensar em si.
-Hum…Mas eu de momento não estou interessada em comprar nada sabe..
-Mas ai é que está, nós temos mesmo ofertas para si, não tem que comprar nada
-Bem não me diga que agora a METROPOLIS anda a oferecer colchões e máquinas de lavar…
-Bem isso não, mas sabe, oferecemos uma batedeira eléctrica a todos os que vierem à nossa demonstração de colchões de água e ortopédicos no próximo sábado à tarde…
-E não se paga entrada? A batedeira pelo menos funciona?
-Sim a entrada para a demonstração com os nossos profissionais é inteiramente gratuita e a batedeira tem 2 anos de garantia.
-Então e a tal demonstração é onde e a que horas afinal?
-Enviaremos uma mensagem escrita para o seu telemóvel com a hora e o local marcados, e permita-me agradecer desde já a sua presença no domingo Sra. Celestina, até breve e disponha sempre.
-Até uma próxima menina
Mas naquela tarde, por entre umas comissões ganhas e insultos fugazes, algo de diferente aconteceu,
-Boa tarde, estou a falar com a Senhora Lurdes Pinho?
-Não, está a falar com Diogo Saraiva, mas porquê…?
-Estava a ligar por causa da nova campanha da METROPOILIS, mas devo ter-me enganado a marcar o número, peço desculpa Diogo, e o resto de uma boa tarde.
-Espere…
- Diga,
-Não que eu acredite no destino, e menos ainda dou valor a trocas de um número ao acaso, mas acredito em vozes bonitas…
-Que quer dizer com isso..?
- Desculpe, sei que não o devia ter dito assim, mas há algo na sua voz que me impediu de desligar a chamada, é bom falar consigo, só para a escutar de volta,
- Bem, agradeço-lhe as palavras, deve ser por eu ser de gelo, mas se não se importa tenho que continuar o meu trabalho…
- De gelo? Bem de gelo somos todos quase sempre, e é o gelo nos permite viver num mundo assim…Eu tenho duas operações para fazer agora à tarde, mas não me apetece desligar, apetece-te?
(Algo aconteceu à rapariga de gelo neste momento, não pode ter sido atracção física, porque apenas o escutava pelo telefone, e muito menos amor, não me lixem, o amor não surge assim, poderia até ser apenas compreensão, a forma como ele a encarou por ser de gelo, mas, e isso ela sabia-o bem, para ele, o gelo dela era metáfora. Por isso chamo-lhe algo apenas, dir-me-ão que é impreciso, aceito a imprecisão, mas terão de me dizer, o que há afinal de preciso no coração de uma mulher)
-Não, não me apetece, liguei para impingir colchões e aspiradores, e vou passar o resto da tarde a fazê-lo, mas agora apetece-me falar e não desligar, mesmo os momentos de silêncio sabem bem, o silêncio não é sempre igual.
-Confesso que de facto de colchões e aspiradores não preciso por agora, mas ambos precisamos de jantar logo à noite…
-Essa é a tua forma, nada subtil, de me convidares para jantar?
- Depende, …é essa a tua forma subtil de aceitares o convite?
-Bem, agora ficava-me bem dizer que nem queria aceitar o convite, mas a forma como me prendeste a uma resposta obriga-me a aceitá-lo…
-Mas ao invés de dizeres isso dizes…
-Encontramo-nos às 8?
- No Atlâtico?
(Um silêncio quase confrangedor, ouvem a respiração um do outro do lado de lá do telefone, é estranho, porque o que fica por dizer num silêncio entre duas almas assim, não representa nada ao pé do que eles, em silêncio, desejam. E sinuoso é o caminho do desejo, pelo menos enquanto a carne nos reveste os ossos e o sangue nos percorre as entranhas. Mais algumas respirações trocadas, sentidas, e ele desligou, ou ela desligou, não sei, ela não sabe, que interessa?)
Claro que, e o esplêndido universo feminino que me perdoe, no preciso instante em que a rapariga de gelo poisou o telefone, um enorme burburinho se abateu sobre a sala, as outras telefonistas, algumas ainda novas e bem-feitas, outras já com mais alguns anos, casadas algumas, e normalmente bem entroncadas, comentavam todos os detalhes da conversa dela, normalmente em surdina, mas por vezes deixando escapar algumas frases soltas, “ Achas que ele vai sequer chegar ao pé dela ou foge quando perceber que vai ter um encontro romântico com um boneco de neve?” “ Coitada, coitada dela e dele” “ Sorte tem ela em ter um coração de gelo, vai custar-lhe menos” “ Ela que vá mas é com o corpo bem tapadinho, que pode ser que ele aguente pelo menos o jantar…se ela pagar a conta”, estavam já todas abstraídas da lista infindável de coisas que tinham para impingir por telefone, e a pouca misericórdia meio trocista que ela ia ouvindo no que lhes escapava entre dentes devia-se às certezas, dadas pela vida, que ela apesar de bonita, delicada e bem torneada, iria ser chutada por quem quer que fosse o rapaz do outro lado da linha, porque afinal, ela era de gelo.
Entretanto a noite chegou, e com ela chegaram as 8h, e assim chegou o encontro. Ela tinha saído apressada do trabalho, e seguiu para casa a passo acelerado, para ainda ter tempo de tomar um banho, secar o cabelo (finíssimos filamentos, tão finos que apesar de serem de gelo ondulavam ao vento), aplicar em todo o corpo uma loção hidratante…Sim é verdade que ela era de gelo e provavelmente não teria necessidade alguma de tomar um banho assim antes do encontro, de lavar o cabelo de gelo com aquele champô novo, e especial para cabelos sensíveis, da L´oreal, de aplicar aquela panóplia de cremes hidratantes, de experimentar todos os 8 vestidos que tinha no armário, alguns mais que uma vez, e depois de finalmente ter escolhido um, voltar a trocá-lo porque afinal não combinava com os sapatos. Sim, não tinha necessidade alguma de tudo isto, mas afinal ela era uma mulher, e as mulheres precisam disso, não para se tornarem mais bonitas, mas para acreditarem que o são, além de que, e talvez tal sirva de desculpa para explicar momentos mais “caricatos”, como o de sacar um cabelo que afinal, era de gelo, este era o seu primeiro encontro, e o leitor sabe-o bem, quando assim é o coração bate mais depressa, e isso explica o que alguém com uma normal pulsação de 65 batimentos por segundo não percebe...Colocou um batom vermelho que lhe realçava os lábios, quase como se desse carne ao gelo, e saiu.
Encontraram-se à porta do Atlântico, ela não sabe a que horas ele chegou, porque quando às 8h lá chegou ele já lá estava, e estava, diga-se, bastante bem apresentado, tinha cabelos pretos meio desalinhados, meio inclinados para a esquerda, olhos castanhos tipo avelã, uma camisa aos quadradinhos engraçada e sapatos em vela, e era bonito o rapaz e segurava um ramo de rosas azuis na mão, e ela vestindo o belo vestido vermelho escarlate que acabou por escolher (e que claro combinava com os sapatos), foi até junto a ele com o coração acelerado.
(É claro que quando a viu, primeiro ainda ao longe, a aproximar-se, e depois junto a ele, percebeu que ela era mesmo de gelo, bela, mas de gelo, e certamente que isso se notou na sua expressão facial, mas, recompôs-se rápido da surpresa e olhou bem para ela, primeiro tentou olhar através dos profundos olhos verdes dela, ia-se lembrando da voz dela enquanto a percorria com o olhar, enquanto ela se aproximava, enquanto deixava de reparar, que afinal ela era de gelo.)
Claro que quando ela chegou junto dele, quando se apresentaram e trocaram as primeiras palavras e ele sentiu o respirar ofegante pela expectativa e pelo momento, mas sempre gelado dela, ou quando deram dois beijos depois de se apresentarem e ele sentiu os lábios belos, mas gelados dela, na sua pele morna das faces, bem nesses momentos ele sentiu-se estranho e deslocado ali, mas de certa forma ele sentia algo por ela, gostava de a ter ali ao lado dele, de ouvir a voz dela assim tão perto mesmo que isso o arrepiasse de frio, e de sentir os lábios dela na pele dele, mesmo que ao inicio só sentisse frio, e assim com um sorriso nervoso e de olhar penetrante deu-lhe as flores que trazia, dizendo apenas “trago-as porque me disseram uma vez que as rosas são a única flor que por ser tão bela, célebre e de si apaixonada, nunca invejou, e agora são tuas para te invejarem a ti”, e ela sorrindo, encostou-as ao peito, meio coberto por aquele vestido vermelho escarlate, e agradeceu. E assim, Diogo e a rapariga de gelo, que mantinha as rosas azuis contra o peito, entraram no restaurante.
Sentaram-se numa mesa junto à janela, com vista para o mar, e mesmo sendo de noite notava-se a eterna e efémera silhueta das ondas do mar, passaram o jantar a falar de trivialidades, ele falou-lhe da infância traquina, das grandes festas do secundário e dos memoráveis anos na faculdade de medicina, das viagens que fizera pela Europa, e do seu desejo de correr o mundo, ela, bem ela entre poesia e cinema ia-lhe falando dos sonhos, e das poucas trivialidades da vida que o gelo não lhe roubara, e acabaram, quais promessas vãs que se esbatem quando a noite se vai, com a promessa mútua de que ainda iriam viajar juntos um dia, talvez à paradisíaca Austrália, quem sabe, que interessa?
Pouco antes de saírem do restaurante no entanto, esqueceram por momentos as trivialidades, que por vezes se parecem demais com verdades de circunstância que nos impedem de dizer a verdade, e é certo que é verdade tudo o que sentimos, mesmo o que não dizemos, mas por vezes não podemos pedir de mais aos outros que adivinhem tudo,
- Apetece-me dizer-te a verdade…
- Qual verdade?
-Que apesar de tudo gosto de ti
- O tudo é eu ser de gelo…?
-Não o tudo é que dos 24 anos que já vivi, não me lembro de nada agora, só de ti
-Pois mas eu sou de gelo, e por mais que apeteça mudar isso agora, desde sempre e para sempre ou só por esta noite, não posso, nunca poderei.
-Sim, tu não podes percebo-te, mas eu posso
-Como farias isso?
-Já o fiz, olho para ti e apetece-me tocar-te, beijar-te, mordiscar-te, abraçar-te, basta assim para não seres de gelo?
-Não sei, mas basta assim para te amar
Saíram do restaurante de mãos entrelaçadas, e aos beijos, longos beijos aconchegados, e juras e mais juras de amor sussurradas, que para sempre serão só deles, sim ela ainda era de gelo, e ele continuava a sentir frio, mas sem nunca pensar ou lhe ocorrer sequer largá-la, parar de beijá-la e de desejá-la, assim é um coração cego de amor, sente o que há em redor, mas logo esquece quase tudo.
Entraram depois no carro dele, um Volvo vermelho já com alguns anos, com alguns arranhões na chapa, mas irrepreensível no interior, e enquanto o carro começava a andar e ia tocando na rádio a Walk Away dos Franz, acabaram por se beijar, abraçar, arranhar, mordiscar, de forma diga-se, convenhamos, pouco própria para quem apesar de tudo tentava conduzir, e teria sido um momento delicioso (é sempre delicioso vermos as situações “constrangedoras” que acontecem aos outros), se um “agente da autoridade” tem apanhado a rapariga de gelo a, vamos lá, condicionar o ângulo de visão do condutor…Acabaram no entanto por chegar junto do apartamento dele sem percalços de maior, bem, o facto de ela ter ficado com uma perna entalada entre o manípulo das mudanças e os estofos do carro, é um percalço, mas não de maior.Com alguma agilidade e perseverança, lá saíram ambos do carro e foram abraçados e aos beijos subindo as escadas até ao 3ºesquerdo, os pensamentos e racionalidade estavam congelados pela chama que os consumia, ninguém pensa num momento assim.
O apartamento era bastante simples, tão simples que o tornava belo, no hall de entrada havia apenas uma cómoda de linhas quase rectas, coberta por recordações de viagens passadas, desde as “fotografias da praxe”, passando por postais meio gastos todos escritos na parte de trás, talões manuscritos, bilhetes picotados e outras peças de artesanato local ou pessoal, e até um instrumento musical meio esquisito que lembrava uma flauta de pã gigante e que ele prometera um dia aprender a tocar. Também o quarto dele era de uma beleza simples, mas agora o belo era em tons de vermelho, não tanto por causa da decoração do quarto, em que só os cortinados e tapetes eram meio avermelhados, mas por causa do batom vermelho forte que lhe cobria os lábios e do vestido, de vermelho igual, que lhe tapava parcialmente o peito e descobria as pernas, era simples, e era belo,
-Sabes, não era suposto acontecer assim.
-Assim como?
- Eu de gelo, e tu de carne…
-O desejo não é de carne ou de gelo, é de ti…
-E quem sou eu afinal?
-És a mulher que eu amo desde que me ligaste e disseste por engano “Boa tarde, estou a falar com a Senhora Lurdes Pinho?”, soube pela tua voz que me ia apaixonar por ti…
-Bem, Lurdes Pinho também não te ficava assim tão mal, convenhamos, mas parece-me que não ia amar assim a senhora Lurdes.
Enquanto se beijavam, enquanto quase se mordiam abstraídos do mundo, enquanto tudo isso ele começou por lhe desapertar aquele vestido vermelho escarlate que lhe ia cobrindo o corpo, e depressa estavam os dois completamente nus. Então ele começou a beijar-lhe o pescoço e os ombros perfeitamente definidos e enquanto ela lhe entrelaçava os braços no pescoço arranhando-o até, pressionando-lhe as vértebras e mordiscando-lhe o queixo e os lábios, ele começou a beijar-lhe e acariciar-lhe os peitos, que talvez por serem de gelo estavam perfeitamente arrebitados, depois por um momento olharam-se apenas, trocaram olhares de súplica, de desejo, de medo, de compreensão, de ansiedade, de expectativa e porque não, de amor…Ele não sentia frio abraçado a ela agora, os beijos eram quentes, tamanha é a ilusão do amor, parecia até que ela estava a derreter, deixaram-se ambos cair na cama e assim fizeram amor.
Quando acordou, horas mais tarde, já o Sol nascera, não a viu deitada a seu lado, estava sozinho no quarto, e a seu lado apenas os lençóis encharcados, ocorreu-lhe naquele instante que o gelo pudesse ter derretido, e toda ela era gelo , que tivera que por uma vez amar para depois desaparecer para sempre, para o gelo se tornar em água e ela em nada, há sua volta no quarto apenas as rosas azuis que lhe oferecera e as roupas deles espalhadas pelo chão, e entre os lençóis, meio encharcado também, um pequeno papel que dizia “Existem príncipes, existem princesas também, mas os contos de fadas não existem”, Diogo percebeu que algo não batia certo, mas é sempre tarde demais depois do nascer do Sol, soube que não mais a veria, e diga-se a verdade, algumas lágrimas lhe escorreram pelo rosto, percorrendo a barba desalinha dele até ecoarem no chão, olhou uma ultima vez para o vestido vermelho dela, agora engelhado e parecendo vulgar, e servindo-se do pretexto de pegar no papel com a mensagem esquisita pareceu por instante acariciar o lençol molhado, depois levantou-se, atirou o papel para a cómoda do hall e foi tomar um banho, pensaria em tudo aquilo depois, afinal, ele era de carne e osso.
Anos mais tarde, enquanto passeava pela baixa da cidade, cruzou-se com o que juraria ser ela, agora de carne e osso deambulando descontraída pela rua, o seu coração acelerou, porque se não o amor, a nostalgia e a surpresa também aceleram um coração, e pensou em chamá-la, em dizer qualquer coisa agradável, ocorreu-lhe nesse momento, que afinal nunca soubera o seu nome.
Bem, a história podia começar com um melancólico “há muito, muito tempo, quando ainda se escreviam cartas de amor”, ou com um expectante “ naquela manhã de Novembro, fria, muito fria, mas nunca suficientemente fria”, mas, e porque foi o que aconteceu, garanto-lhe caro leitor que foi assim que aconteceu, começa com a rapariga de gelo a caminhar pelas ruas da cidade de top, shorts e havaianas, numa normal tarde de Verão. E ela era mesmo de gelo, não se trata de qualquer tipo de hipérbole ou metáfora forçada, até as pernas dela, bem torneadas e realçadas pelos calções justinhos, bem eram lindas, mas eram de gelo, de um gelo profundamente límpido com um suave tom azulado, e o resto do seu corpo assim o era também, de gelo, e ousava andar ao Sol sem derreter, estranhamente os seus olhos eram verdes, de um verde absoluto e profundo, mas mesmo assim, frios, o belo também pode ser frio.
Ela tentava ser simpática para as outras pessoas, tentava sorrir ao senhor da mercearia, mas a simpatia deste ia-se quando as mãos deles se tocavam no momento dos trocos, causavam-lhe repulsa as mãos belas mas geladas dela, em contacto com as mãos macilentas, enrugadas, mas humanas dele. E sempre que tentando ser delicada e tocava ou beijava as faces de alguém, fazia com que se afastassem atrapalhadamente por causa daquele gelo que não compreendiam, um dia quando ainda era bem mais nova, nova apanhou-se sozinha com o vizinho engraçado do 3º esquerdo, e sussurrando-lhe ao ouvido disse, “gosto de ti”, e ele, que até se sentia atraído pelo belo corpo que ela já tinha, fugiu de medo e vergonha por causa daquela respiração gelada dela junto ao ouvido e pescoço dele, por causa de ela ser de gelo.
Bem, mas voltando à estranha história, ela caminhava em trajes curtos pela rua naquela tarde de Verão, recebendo olhares de soslaio de homens que com ela se iam cruzando na rua, e reparavam naquele corpo bem torneado e apetecível, embora de gelo, mas quando passavam realmente perto dela, quando um olhar se cruzava, tinham medo, mostravam esse medo, e desapareciam apreçados, enfim, que se pode mais esperar de um triste espécime que em tempos, orquestrou guerras sangrentas por causa de um belo par de pernas, mas depois não consegue abrir o coração a uma mulher (a rapariga de gelo tinha mesmo estes pensamentos sobre os palhaços que içavam a bandeira olhando de soslaio, e depois se afastavam amedrontados, não se tratando assim de qualquer subjectividade do autor no que ao complexo universo masculino diz respeito).
Assim eram todas as relações e afectos da rapariga de gelo, duravam um olhar atrevido ou um sussurrar gelado, também assim o fora com os seus pais, sim, todo o ser, por mais estranho, belo, diferente ou desdenhado que seja, resulta de dois prévios genomas, e o caso dela, belo ser humano feito de gelo, não fora, em momento algum, diferente. A sua mãe viveu até ela nascer, morreu de complicações no parto, fora essa a verdade que lhe contaram mais tarde, o pai fugiu ao vê-la, perfeita e bela ao nascer, mas já ai de gelo, e nunca mais fora visto pela cidade, talvez tenha ido para outra cidade, outro país, outro mundo onde não nascessem crianças de gelo e onde pudesse ter um filho com carne igual à sua, talvez seja agora um homem bem sucedido, e feliz por ter filhos que apresenta aos amigos, que talvez até já tenham namoradas e namorados de verdade, bem mas todas estas vidas imaginárias de seu pai, são os pensamentos que em tantos anos no orfanato lhe surgiram e ficaram.
No orfanato pouco lhe falavam também, as outras crianças tinham medo, as professoras e funcionárias tinham receio, passava tempos e tempos sozinha, era dispensada da maior parte das tarefas e de todas as brincadeiras, as amizades, namoricos e grandes paixões, vivia-as pelos livros e filmes antigos que preenchiam a velha biblioteca, sítio onde passara grande parte daqueles anos, apaixonou-se pelo James Dean e pelo Marlon Brando, chorou no final do Casablanca, quando ele por a amar tanto desistiu dela, e teria dado um par de estalos à Scarlett se pudesse, por ela quase sempre ter querido apenas o que nunca poderia ter no “E tudo o Vento Levou”.
Entre pensamentos confusos lá chegou ao agora seu lugar de trabalho, era telefonista numa multinacional qualquer, ligava para uma lista infinita de números para tentar impingir uma quantidade infinita de produtos de que quase ninguém precisava (sim é certo que nos apetece dar um tiro a essa gente chata que nos liga enquanto jantamos para nos tentar vender um colchão de água equipado com 3 tipos diferentes de massagem e revestido de um tecido com um suave aroma a alfazema ) mas foi o único emprego que arranjou onde ninguém tinha, nem por um instante apenas, que tocar nas suas mãos geladas ou sentir o gelo que emanava da sua respiração. Trabalhava numa sala ampla, sentada numa das muitas secretárias, em que se passava o dia a tentar impingir aquela lista infindável de coisas da empresa. Tinha a sua secretária empilhada de papéis, que quase lhe tapavam o obsoleto telefone com o qual passava o dia embrenhada, e recomeçara agora a marcar os números da imensa lista que tinha interrompido para ir almoçar, e pela qual ganhava à comissão.
Bem, e as conversas eram normalmente de um de dois tipos, ou:
-Boa tarde, estou a falar com a Sra. Olívia Cruz?
-É a própria, a que se deve o seu telefonema?
- Pois bem, estou a ligar-lhe para lhe falar da campanha de Verão da METROPOLIS, temos ofertas fantásticas a pensar em si.
-Nessa não me apanham mais, 4h fechada numa sala com o meu Armando a tentarem
impingir-nos um colchão de água por já sei lá eu quanto, devia ter lá marisco dentro ou o raio que o foda…Piiiiiiiii
Ou então…
-Boa Tarde, estou a falar com a Sra. Celestina Lopes?
- É a própria, de que se trata?
-Pois bem, estou a ligar-lhe para lhe falar da campanha de Verão da METROPOLIS, temos ofertas fantásticas a pensar em si.
-Hum…Mas eu de momento não estou interessada em comprar nada sabe..
-Mas ai é que está, nós temos mesmo ofertas para si, não tem que comprar nada
-Bem não me diga que agora a METROPOLIS anda a oferecer colchões e máquinas de lavar…
-Bem isso não, mas sabe, oferecemos uma batedeira eléctrica a todos os que vierem à nossa demonstração de colchões de água e ortopédicos no próximo sábado à tarde…
-E não se paga entrada? A batedeira pelo menos funciona?
-Sim a entrada para a demonstração com os nossos profissionais é inteiramente gratuita e a batedeira tem 2 anos de garantia.
-Então e a tal demonstração é onde e a que horas afinal?
-Enviaremos uma mensagem escrita para o seu telemóvel com a hora e o local marcados, e permita-me agradecer desde já a sua presença no domingo Sra. Celestina, até breve e disponha sempre.
-Até uma próxima menina
Mas naquela tarde, por entre umas comissões ganhas e insultos fugazes, algo de diferente aconteceu,
-Boa tarde, estou a falar com a Senhora Lurdes Pinho?
-Não, está a falar com Diogo Saraiva, mas porquê…?
-Estava a ligar por causa da nova campanha da METROPOILIS, mas devo ter-me enganado a marcar o número, peço desculpa Diogo, e o resto de uma boa tarde.
-Espere…
- Diga,
-Não que eu acredite no destino, e menos ainda dou valor a trocas de um número ao acaso, mas acredito em vozes bonitas…
-Que quer dizer com isso..?
- Desculpe, sei que não o devia ter dito assim, mas há algo na sua voz que me impediu de desligar a chamada, é bom falar consigo, só para a escutar de volta,
- Bem, agradeço-lhe as palavras, deve ser por eu ser de gelo, mas se não se importa tenho que continuar o meu trabalho…
- De gelo? Bem de gelo somos todos quase sempre, e é o gelo nos permite viver num mundo assim…Eu tenho duas operações para fazer agora à tarde, mas não me apetece desligar, apetece-te?
(Algo aconteceu à rapariga de gelo neste momento, não pode ter sido atracção física, porque apenas o escutava pelo telefone, e muito menos amor, não me lixem, o amor não surge assim, poderia até ser apenas compreensão, a forma como ele a encarou por ser de gelo, mas, e isso ela sabia-o bem, para ele, o gelo dela era metáfora. Por isso chamo-lhe algo apenas, dir-me-ão que é impreciso, aceito a imprecisão, mas terão de me dizer, o que há afinal de preciso no coração de uma mulher)
-Não, não me apetece, liguei para impingir colchões e aspiradores, e vou passar o resto da tarde a fazê-lo, mas agora apetece-me falar e não desligar, mesmo os momentos de silêncio sabem bem, o silêncio não é sempre igual.
-Confesso que de facto de colchões e aspiradores não preciso por agora, mas ambos precisamos de jantar logo à noite…
-Essa é a tua forma, nada subtil, de me convidares para jantar?
- Depende, …é essa a tua forma subtil de aceitares o convite?
-Bem, agora ficava-me bem dizer que nem queria aceitar o convite, mas a forma como me prendeste a uma resposta obriga-me a aceitá-lo…
-Mas ao invés de dizeres isso dizes…
-Encontramo-nos às 8?
- No Atlâtico?
(Um silêncio quase confrangedor, ouvem a respiração um do outro do lado de lá do telefone, é estranho, porque o que fica por dizer num silêncio entre duas almas assim, não representa nada ao pé do que eles, em silêncio, desejam. E sinuoso é o caminho do desejo, pelo menos enquanto a carne nos reveste os ossos e o sangue nos percorre as entranhas. Mais algumas respirações trocadas, sentidas, e ele desligou, ou ela desligou, não sei, ela não sabe, que interessa?)
Claro que, e o esplêndido universo feminino que me perdoe, no preciso instante em que a rapariga de gelo poisou o telefone, um enorme burburinho se abateu sobre a sala, as outras telefonistas, algumas ainda novas e bem-feitas, outras já com mais alguns anos, casadas algumas, e normalmente bem entroncadas, comentavam todos os detalhes da conversa dela, normalmente em surdina, mas por vezes deixando escapar algumas frases soltas, “ Achas que ele vai sequer chegar ao pé dela ou foge quando perceber que vai ter um encontro romântico com um boneco de neve?” “ Coitada, coitada dela e dele” “ Sorte tem ela em ter um coração de gelo, vai custar-lhe menos” “ Ela que vá mas é com o corpo bem tapadinho, que pode ser que ele aguente pelo menos o jantar…se ela pagar a conta”, estavam já todas abstraídas da lista infindável de coisas que tinham para impingir por telefone, e a pouca misericórdia meio trocista que ela ia ouvindo no que lhes escapava entre dentes devia-se às certezas, dadas pela vida, que ela apesar de bonita, delicada e bem torneada, iria ser chutada por quem quer que fosse o rapaz do outro lado da linha, porque afinal, ela era de gelo.
Entretanto a noite chegou, e com ela chegaram as 8h, e assim chegou o encontro. Ela tinha saído apressada do trabalho, e seguiu para casa a passo acelerado, para ainda ter tempo de tomar um banho, secar o cabelo (finíssimos filamentos, tão finos que apesar de serem de gelo ondulavam ao vento), aplicar em todo o corpo uma loção hidratante…Sim é verdade que ela era de gelo e provavelmente não teria necessidade alguma de tomar um banho assim antes do encontro, de lavar o cabelo de gelo com aquele champô novo, e especial para cabelos sensíveis, da L´oreal, de aplicar aquela panóplia de cremes hidratantes, de experimentar todos os 8 vestidos que tinha no armário, alguns mais que uma vez, e depois de finalmente ter escolhido um, voltar a trocá-lo porque afinal não combinava com os sapatos. Sim, não tinha necessidade alguma de tudo isto, mas afinal ela era uma mulher, e as mulheres precisam disso, não para se tornarem mais bonitas, mas para acreditarem que o são, além de que, e talvez tal sirva de desculpa para explicar momentos mais “caricatos”, como o de sacar um cabelo que afinal, era de gelo, este era o seu primeiro encontro, e o leitor sabe-o bem, quando assim é o coração bate mais depressa, e isso explica o que alguém com uma normal pulsação de 65 batimentos por segundo não percebe...Colocou um batom vermelho que lhe realçava os lábios, quase como se desse carne ao gelo, e saiu.
Encontraram-se à porta do Atlântico, ela não sabe a que horas ele chegou, porque quando às 8h lá chegou ele já lá estava, e estava, diga-se, bastante bem apresentado, tinha cabelos pretos meio desalinhados, meio inclinados para a esquerda, olhos castanhos tipo avelã, uma camisa aos quadradinhos engraçada e sapatos em vela, e era bonito o rapaz e segurava um ramo de rosas azuis na mão, e ela vestindo o belo vestido vermelho escarlate que acabou por escolher (e que claro combinava com os sapatos), foi até junto a ele com o coração acelerado.
(É claro que quando a viu, primeiro ainda ao longe, a aproximar-se, e depois junto a ele, percebeu que ela era mesmo de gelo, bela, mas de gelo, e certamente que isso se notou na sua expressão facial, mas, recompôs-se rápido da surpresa e olhou bem para ela, primeiro tentou olhar através dos profundos olhos verdes dela, ia-se lembrando da voz dela enquanto a percorria com o olhar, enquanto ela se aproximava, enquanto deixava de reparar, que afinal ela era de gelo.)
Claro que quando ela chegou junto dele, quando se apresentaram e trocaram as primeiras palavras e ele sentiu o respirar ofegante pela expectativa e pelo momento, mas sempre gelado dela, ou quando deram dois beijos depois de se apresentarem e ele sentiu os lábios belos, mas gelados dela, na sua pele morna das faces, bem nesses momentos ele sentiu-se estranho e deslocado ali, mas de certa forma ele sentia algo por ela, gostava de a ter ali ao lado dele, de ouvir a voz dela assim tão perto mesmo que isso o arrepiasse de frio, e de sentir os lábios dela na pele dele, mesmo que ao inicio só sentisse frio, e assim com um sorriso nervoso e de olhar penetrante deu-lhe as flores que trazia, dizendo apenas “trago-as porque me disseram uma vez que as rosas são a única flor que por ser tão bela, célebre e de si apaixonada, nunca invejou, e agora são tuas para te invejarem a ti”, e ela sorrindo, encostou-as ao peito, meio coberto por aquele vestido vermelho escarlate, e agradeceu. E assim, Diogo e a rapariga de gelo, que mantinha as rosas azuis contra o peito, entraram no restaurante.
Sentaram-se numa mesa junto à janela, com vista para o mar, e mesmo sendo de noite notava-se a eterna e efémera silhueta das ondas do mar, passaram o jantar a falar de trivialidades, ele falou-lhe da infância traquina, das grandes festas do secundário e dos memoráveis anos na faculdade de medicina, das viagens que fizera pela Europa, e do seu desejo de correr o mundo, ela, bem ela entre poesia e cinema ia-lhe falando dos sonhos, e das poucas trivialidades da vida que o gelo não lhe roubara, e acabaram, quais promessas vãs que se esbatem quando a noite se vai, com a promessa mútua de que ainda iriam viajar juntos um dia, talvez à paradisíaca Austrália, quem sabe, que interessa?
Pouco antes de saírem do restaurante no entanto, esqueceram por momentos as trivialidades, que por vezes se parecem demais com verdades de circunstância que nos impedem de dizer a verdade, e é certo que é verdade tudo o que sentimos, mesmo o que não dizemos, mas por vezes não podemos pedir de mais aos outros que adivinhem tudo,
- Apetece-me dizer-te a verdade…
- Qual verdade?
-Que apesar de tudo gosto de ti
- O tudo é eu ser de gelo…?
-Não o tudo é que dos 24 anos que já vivi, não me lembro de nada agora, só de ti
-Pois mas eu sou de gelo, e por mais que apeteça mudar isso agora, desde sempre e para sempre ou só por esta noite, não posso, nunca poderei.
-Sim, tu não podes percebo-te, mas eu posso
-Como farias isso?
-Já o fiz, olho para ti e apetece-me tocar-te, beijar-te, mordiscar-te, abraçar-te, basta assim para não seres de gelo?
-Não sei, mas basta assim para te amar
Saíram do restaurante de mãos entrelaçadas, e aos beijos, longos beijos aconchegados, e juras e mais juras de amor sussurradas, que para sempre serão só deles, sim ela ainda era de gelo, e ele continuava a sentir frio, mas sem nunca pensar ou lhe ocorrer sequer largá-la, parar de beijá-la e de desejá-la, assim é um coração cego de amor, sente o que há em redor, mas logo esquece quase tudo.
Entraram depois no carro dele, um Volvo vermelho já com alguns anos, com alguns arranhões na chapa, mas irrepreensível no interior, e enquanto o carro começava a andar e ia tocando na rádio a Walk Away dos Franz, acabaram por se beijar, abraçar, arranhar, mordiscar, de forma diga-se, convenhamos, pouco própria para quem apesar de tudo tentava conduzir, e teria sido um momento delicioso (é sempre delicioso vermos as situações “constrangedoras” que acontecem aos outros), se um “agente da autoridade” tem apanhado a rapariga de gelo a, vamos lá, condicionar o ângulo de visão do condutor…Acabaram no entanto por chegar junto do apartamento dele sem percalços de maior, bem, o facto de ela ter ficado com uma perna entalada entre o manípulo das mudanças e os estofos do carro, é um percalço, mas não de maior.Com alguma agilidade e perseverança, lá saíram ambos do carro e foram abraçados e aos beijos subindo as escadas até ao 3ºesquerdo, os pensamentos e racionalidade estavam congelados pela chama que os consumia, ninguém pensa num momento assim.
O apartamento era bastante simples, tão simples que o tornava belo, no hall de entrada havia apenas uma cómoda de linhas quase rectas, coberta por recordações de viagens passadas, desde as “fotografias da praxe”, passando por postais meio gastos todos escritos na parte de trás, talões manuscritos, bilhetes picotados e outras peças de artesanato local ou pessoal, e até um instrumento musical meio esquisito que lembrava uma flauta de pã gigante e que ele prometera um dia aprender a tocar. Também o quarto dele era de uma beleza simples, mas agora o belo era em tons de vermelho, não tanto por causa da decoração do quarto, em que só os cortinados e tapetes eram meio avermelhados, mas por causa do batom vermelho forte que lhe cobria os lábios e do vestido, de vermelho igual, que lhe tapava parcialmente o peito e descobria as pernas, era simples, e era belo,
-Sabes, não era suposto acontecer assim.
-Assim como?
- Eu de gelo, e tu de carne…
-O desejo não é de carne ou de gelo, é de ti…
-E quem sou eu afinal?
-És a mulher que eu amo desde que me ligaste e disseste por engano “Boa tarde, estou a falar com a Senhora Lurdes Pinho?”, soube pela tua voz que me ia apaixonar por ti…
-Bem, Lurdes Pinho também não te ficava assim tão mal, convenhamos, mas parece-me que não ia amar assim a senhora Lurdes.
Enquanto se beijavam, enquanto quase se mordiam abstraídos do mundo, enquanto tudo isso ele começou por lhe desapertar aquele vestido vermelho escarlate que lhe ia cobrindo o corpo, e depressa estavam os dois completamente nus. Então ele começou a beijar-lhe o pescoço e os ombros perfeitamente definidos e enquanto ela lhe entrelaçava os braços no pescoço arranhando-o até, pressionando-lhe as vértebras e mordiscando-lhe o queixo e os lábios, ele começou a beijar-lhe e acariciar-lhe os peitos, que talvez por serem de gelo estavam perfeitamente arrebitados, depois por um momento olharam-se apenas, trocaram olhares de súplica, de desejo, de medo, de compreensão, de ansiedade, de expectativa e porque não, de amor…Ele não sentia frio abraçado a ela agora, os beijos eram quentes, tamanha é a ilusão do amor, parecia até que ela estava a derreter, deixaram-se ambos cair na cama e assim fizeram amor.
Quando acordou, horas mais tarde, já o Sol nascera, não a viu deitada a seu lado, estava sozinho no quarto, e a seu lado apenas os lençóis encharcados, ocorreu-lhe naquele instante que o gelo pudesse ter derretido, e toda ela era gelo , que tivera que por uma vez amar para depois desaparecer para sempre, para o gelo se tornar em água e ela em nada, há sua volta no quarto apenas as rosas azuis que lhe oferecera e as roupas deles espalhadas pelo chão, e entre os lençóis, meio encharcado também, um pequeno papel que dizia “Existem príncipes, existem princesas também, mas os contos de fadas não existem”, Diogo percebeu que algo não batia certo, mas é sempre tarde demais depois do nascer do Sol, soube que não mais a veria, e diga-se a verdade, algumas lágrimas lhe escorreram pelo rosto, percorrendo a barba desalinha dele até ecoarem no chão, olhou uma ultima vez para o vestido vermelho dela, agora engelhado e parecendo vulgar, e servindo-se do pretexto de pegar no papel com a mensagem esquisita pareceu por instante acariciar o lençol molhado, depois levantou-se, atirou o papel para a cómoda do hall e foi tomar um banho, pensaria em tudo aquilo depois, afinal, ele era de carne e osso.
Anos mais tarde, enquanto passeava pela baixa da cidade, cruzou-se com o que juraria ser ela, agora de carne e osso deambulando descontraída pela rua, o seu coração acelerou, porque se não o amor, a nostalgia e a surpresa também aceleram um coração, e pensou em chamá-la, em dizer qualquer coisa agradável, ocorreu-lhe nesse momento, que afinal nunca soubera o seu nome.
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