Imagina que a tua vida depende desta escolha absurda. As pessoas mais ou menos interessantes, mas nunca com a mesma constante razão e presença de espírito que tu possuis, que tu já conheces e ainda vais conhecer, e todas as outras, essas sim verdadeiramente interessantes e que te compreenderiam em toda a tua magnitude, que ficaram por conhecer. O emprego medíocre, que arranjaste, quase que a lembrar o trabalho de Sísifo , e as 20 oportunidades que perdeste de ser rico. Os que escolheste amar, porque o tempo não pára e já estava a ficar tarde, escapando-te aquela tua outra tal metade, que Zeus um dia separou com um raio.
Assim como as tuas formas cada vez mais arredondadas, não, isso não, desculpa, isso é culpa dos maus genes, que tu até não comes quase nada, e às terças e quintas-feiras vais passear o cão, para o bicho não ficar entrevado. Ou mesmo o acidente que tiveste, porque o outro empecilho, que por acaso tinha acabado de ver um documentário do National Geografic sobre salamandras, e o seu importante papel no ecossistema global, resolve travar a fundo quando uma se lhe atravessa no caminho, enquanto tu apenas ias sem distância de segurança, e em excesso de velocidade, porque, já estavas atrasado para o tal emprego medíocre, quando te lembraste que ainda não tinhas ido ver à internet se o Glorioso tinha ganho aquele amigável com uma equipa Chinesa, do qual só tinhas visto metade porque o fuso horário dos olhos em bico é meio manhoso, além de que aquela estrada era perfeitamente segura para andar rápido, excepto com bestas como aquelas por perto. A tragédia que daí veio, estavas sem sinto, foste projectado, bateste com a cabeça, e o teu olho esquerdo foi a única coisa que alguma vez voltaste a mexer. Ou afinal não, tinhas posto o sinto quando te cruzaste com um carro da polícia 2 minutos antes, apenas te arranhaste no joelho, tinhas seguro contra todos os riscos e até já estavas a pensar trocar de carro que aquele fazia um barulho esquisito no motor, o tipo da Salamandra já tinha uma certa idade, reconheceu alguma culpa, mas como, incompreensivelmente, para a implacável da Seguradora foste tu o culpado, e ias pagar o seguro mais caro nos próximos 10 anos, o velho teve pena de ti, alguns remorsos até, pois reparou depois que aquela salamandra era da subespécie Gallaica, e o documentário dizia que as Crespoi é que são importantes para o ecossistema, convidou-te para uma churrascada em casa dele. Tu foste, conheceste a filha dele, estava a ficar já tarde para amares alguém, casaram-se, deixaste descendência, ups, ela era médica, aquela médica para quem tu pela primeira vez abriste o olho que conseguias piscar depois daquele terrível e estúpido acidente em que não te cruzaste com nenhum carro de polícia pelo caminho, a escolha é tua, a moeda já girou no ar, está encarcerada numa qualquer mão, à espera, cara ou coroa?
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
segunda-feira, 25 de julho de 2011
SBSR
A noite estava agradável, as previsões diziam que ia estar ventosa e fria, para uma noite de Verão, mas as dezenas de milhares de pessoas que preenchiam o recinto, o álcool que já me acompanhava o sangue apesar do preço absurdo da cerveja, e a vibração dos concertos que contagiava, faziam com que o vento ou frio ali não se impusessem, e o resquício de frio que perdurava na pele, consequência dos duches de água fria do festival, era-me até agradável. O recinto estava fortemente iluminado, a luz que enganava a noite era tanta que permitia ver o rasto branco deixado pelos aviões comerciais que iam passando rente a uma lua que apesar de cheia e orgulhosa não se conseguia impor.
Era a primeira noite, mas a quantidade de pó levantada pelo vento, e pelo andar, saltar e vibrar de toda aquela gente, fazia com que a minha roupa, a minha pele, os meus olhos, e mesmo o meu muco nasal, já estivessem completamente embrenhados desse mesmo pó, contudo, como o “mal” era de todos, e os decibéis camuflavam tudo, a sensação de sujidade tornava-se residual. A quantidade de charros que me ladeavam era também ela avassaladora, bastava inspirar com alguma força para se sentir o fumo que vinha das pontas incandescentes e que servia também ele de exército contra a suja inércia do pó, aliado da When the Sun Goes Down que agora se fazia ouvir e de um quase mágico entusiasmo e dos corpos, de todos os corpos, mas mais notoriamente dos bonitos, que com ela vibravam. Nesta altura um tipo perto de onde eu estava caiu desmaiado, passou de toda a luz, todo o som, toda a multidão e pó que um ser humano pode imaginar enquanto sonha, para o escuro e silêncio, ou pelo menos, para o chão. Nada mudou na multidão, não podia mudar, apenas um corpo se baixou logo depois de ele tocar o chão, tentava não ser pisado pela vibração, dava-lhe estaladas na cara e gritava-lhe qualquer coisa ao ouvido, talvez soubesse o que estava a fazer, pouco depois ambos surgiram de novo, ele estava de novo consciente naquele hino aos sentidos, ou pelo menos tinha largado o chão, um breve instante, eram ambos de novo multidão.
Era a primeira noite, mas a quantidade de pó levantada pelo vento, e pelo andar, saltar e vibrar de toda aquela gente, fazia com que a minha roupa, a minha pele, os meus olhos, e mesmo o meu muco nasal, já estivessem completamente embrenhados desse mesmo pó, contudo, como o “mal” era de todos, e os decibéis camuflavam tudo, a sensação de sujidade tornava-se residual. A quantidade de charros que me ladeavam era também ela avassaladora, bastava inspirar com alguma força para se sentir o fumo que vinha das pontas incandescentes e que servia também ele de exército contra a suja inércia do pó, aliado da When the Sun Goes Down que agora se fazia ouvir e de um quase mágico entusiasmo e dos corpos, de todos os corpos, mas mais notoriamente dos bonitos, que com ela vibravam. Nesta altura um tipo perto de onde eu estava caiu desmaiado, passou de toda a luz, todo o som, toda a multidão e pó que um ser humano pode imaginar enquanto sonha, para o escuro e silêncio, ou pelo menos, para o chão. Nada mudou na multidão, não podia mudar, apenas um corpo se baixou logo depois de ele tocar o chão, tentava não ser pisado pela vibração, dava-lhe estaladas na cara e gritava-lhe qualquer coisa ao ouvido, talvez soubesse o que estava a fazer, pouco depois ambos surgiram de novo, ele estava de novo consciente naquele hino aos sentidos, ou pelo menos tinha largado o chão, um breve instante, eram ambos de novo multidão.
sábado, 9 de julho de 2011
A troca
Acordei, e ao voltar o pescoço fixei o olhar na mulher ao meu lado, a pele, ainda carente de uma vitalidade adormecida, apresentava-se estranhamente pálida, contrastando com o vermelho vivo dos lençóis e com o resto de batom que ainda permanecia nos lábios, e lutava por se manter à tona. A persiana da janela estava entreaberta, e assim, os primeiros raios de Sol, que ela dividia sem travar, iluminavam-nos os corpos nus em milhares de pequenos rectângulos de luz. Sabia que estava perante a maior beleza do mundo, e não sentia nada, não desejava nada nem tão pouco pensava nisso, e com tanto nada já me estava a atrasar. Levantei-me maquinalmente, tendo especial cuidado para pouco fazer balouçar o colchão ao sair, e mesmo os lençóis vermelhos pouco se sentiram, não queria que acordasse, não tinha nada de lucrativo para lhe dizer.
No banho, a água quente que vinha de cima e me massajava monocordicamente as costas permitia-me continuar sem sentir nada, e talvez a culpe em excesso, mas impedia-me mesmo de pensar no absurdo daquela manhã, fechei os olhos, e apenas vi folhas de papel, tabelas de Excel, e fotos, todo o género de fotos, todo o género, desde que fossem de papel. Ai sim, uma primeira pontada de desejo matinal surgiu, folhas preenchidas com belos relatórios , alguns em Ariel 12, outros em Times New Roman, queria analisá-los a todos, louvá-los depois, e as tabelas, milhares de números, combinações de números, queria tocar naqueles números, jantar fora com eles e depois fazer serão, senão à lua cheia, pelo menos iluminados por uma boa lâmpada de 50 watts. E juntando algumas fotos, que mais pode um homem sonhar, até com elas posso andar de mão dada, basta levar tudo dentro de uma pasta.
Fechei a torneira, e ínfimo intervalo de tempo que passou até me começar a secar, senti as gotículas de água que não me tinham largado, e que já estavam apenas mornas, a percorrer-me o corpo, como se um labirinto onde se queriam perder se tratasse, fazendo-me cócegas, ainda bem que acabou depressa. Vesti-me, perfumei-me, olhei-me ao espelho, agradei-lhe, e ajeitei um pouco o nó apertado da gravata.
Olhei para o relógio, e como, se tudo corresse mal, ia demorar 45 minutos a chegar até chegar ao trabalho (que a partir de agora, e nestes últimos 2 derradeiros parágrafos será tratado por Ele) e já só faltavam 50 minutos para o Acontecimento, já não tinha tempo para tomar o pequeno-almoço, comia qualquer coisa depois, e por isso ainda me sobravam agora, que o tempo não espera, 4 minutos, passei pelo quarto mais uma vez, ela continuava a dormir profundamente, mordiscando inconscientemente o lábio, respirava como se fosse suposto eu entender, não sei se foi só hoje, se vou voltar a amá-la amanhã, agora a minha alma é para Ele, transtorna-me agora, mas sei que nunca vou ter coragem de lhe dizer, nunca vou ter coragem de dizer a ninguém.
Estou junto dela, faltam 2 minutos para ter que ir, nem uma ponta de desejo, sinto que temos um contrato de trabalho a unir-nos, quero contar-lhe, dizer-lhe que não a amo, que me fartei do belo, da vida, e dos iguais a mim, ela acorda, os olhos esverdeados dela ainda com as pálpebras hesitantes poisam-se nos meus, aproximo-me mais uns centímetros e beijo-a, olho para o relógio de braçadeira de prata, está na hora de ir ter com Ele, ela finge sorrir, eu retribuo, não há palavras, viro costas, e saio de mão dada com a pasta, feliz, vou ter com o meu grande amor e por isso não me penso.
No banho, a água quente que vinha de cima e me massajava monocordicamente as costas permitia-me continuar sem sentir nada, e talvez a culpe em excesso, mas impedia-me mesmo de pensar no absurdo daquela manhã, fechei os olhos, e apenas vi folhas de papel, tabelas de Excel, e fotos, todo o género de fotos, todo o género, desde que fossem de papel. Ai sim, uma primeira pontada de desejo matinal surgiu, folhas preenchidas com belos relatórios , alguns em Ariel 12, outros em Times New Roman, queria analisá-los a todos, louvá-los depois, e as tabelas, milhares de números, combinações de números, queria tocar naqueles números, jantar fora com eles e depois fazer serão, senão à lua cheia, pelo menos iluminados por uma boa lâmpada de 50 watts. E juntando algumas fotos, que mais pode um homem sonhar, até com elas posso andar de mão dada, basta levar tudo dentro de uma pasta.
Fechei a torneira, e ínfimo intervalo de tempo que passou até me começar a secar, senti as gotículas de água que não me tinham largado, e que já estavam apenas mornas, a percorrer-me o corpo, como se um labirinto onde se queriam perder se tratasse, fazendo-me cócegas, ainda bem que acabou depressa. Vesti-me, perfumei-me, olhei-me ao espelho, agradei-lhe, e ajeitei um pouco o nó apertado da gravata.
Olhei para o relógio, e como, se tudo corresse mal, ia demorar 45 minutos a chegar até chegar ao trabalho (que a partir de agora, e nestes últimos 2 derradeiros parágrafos será tratado por Ele) e já só faltavam 50 minutos para o Acontecimento, já não tinha tempo para tomar o pequeno-almoço, comia qualquer coisa depois, e por isso ainda me sobravam agora, que o tempo não espera, 4 minutos, passei pelo quarto mais uma vez, ela continuava a dormir profundamente, mordiscando inconscientemente o lábio, respirava como se fosse suposto eu entender, não sei se foi só hoje, se vou voltar a amá-la amanhã, agora a minha alma é para Ele, transtorna-me agora, mas sei que nunca vou ter coragem de lhe dizer, nunca vou ter coragem de dizer a ninguém.
Estou junto dela, faltam 2 minutos para ter que ir, nem uma ponta de desejo, sinto que temos um contrato de trabalho a unir-nos, quero contar-lhe, dizer-lhe que não a amo, que me fartei do belo, da vida, e dos iguais a mim, ela acorda, os olhos esverdeados dela ainda com as pálpebras hesitantes poisam-se nos meus, aproximo-me mais uns centímetros e beijo-a, olho para o relógio de braçadeira de prata, está na hora de ir ter com Ele, ela finge sorrir, eu retribuo, não há palavras, viro costas, e saio de mão dada com a pasta, feliz, vou ter com o meu grande amor e por isso não me penso.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
Amar na Idade Média
De todos os períodos da história, a idade média é provavelmente o mais injustiçado e desprezado, “dez séculos de trevas”, é como com desprezo lhe chamam. Mas a idade média somos nós por moldar, nós em uma passada hipótese de existir, uma hipótese antes de a luz ter iluminado o mundo, antes de a ciência nos seduzir, antes de se querer abolir o trágico. Tanto se fala da morte e da crueldade no tempo da idade média, do infortúnio dos que nela se conta que existiram, e tão pouco dos que nela se esquece que amaram.
Imagine-se por uma vez, um tempo em que se fantasiava com a morte, não com a vida, a vida não iludia, vivia-se, e vivia-se nos confins do mundo, em que tudo acabava no que os olhos viam, as cidades, as aldeias, as casas, as pessoas, a dor, a tragédia e o amor, eram o que eram, não o que os moldavam para ser. Nada se questionava, como se tudo fosse o que realmente fosse, as tragédias sucediam, como se desde sempre e para sempre, fosse sangue que respirássemos, e fosse apenas para amar que aqui estivéssemos. Ou para morrer a tentar, que o amor era eterno, e a morte apenas dor. E assim, quem amou na mais profunda tragédia e escuridão, iluminou-se sem que nunca lhe mostrassem qualquer luz, o mundo permanecia escuro, e eles, iluminados, foram-se, escapando à história, uma história que ilumina o mundo, mostra e deslumbra, mata, e depois narra.
Imagine-se por uma vez, um tempo em que se fantasiava com a morte, não com a vida, a vida não iludia, vivia-se, e vivia-se nos confins do mundo, em que tudo acabava no que os olhos viam, as cidades, as aldeias, as casas, as pessoas, a dor, a tragédia e o amor, eram o que eram, não o que os moldavam para ser. Nada se questionava, como se tudo fosse o que realmente fosse, as tragédias sucediam, como se desde sempre e para sempre, fosse sangue que respirássemos, e fosse apenas para amar que aqui estivéssemos. Ou para morrer a tentar, que o amor era eterno, e a morte apenas dor. E assim, quem amou na mais profunda tragédia e escuridão, iluminou-se sem que nunca lhe mostrassem qualquer luz, o mundo permanecia escuro, e eles, iluminados, foram-se, escapando à história, uma história que ilumina o mundo, mostra e deslumbra, mata, e depois narra.
domingo, 3 de julho de 2011
Eterna
Eterna,
Bela,
Soberba,
Maldito de quem te tira o véu,
Enganas,
Controlas,
Vences,
E assim amas,
E mesmo quando perdes,
Não perdes,
Ninguém ganha
Bela,
Soberba,
Maldito de quem te tira o véu,
Enganas,
Controlas,
Vences,
E assim amas,
E mesmo quando perdes,
Não perdes,
Ninguém ganha
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Ensaio sobre o amor
As longas cortinas que tapavam o palco estavam entreabertas, eram de tom ora azul ora quase preto, e por traz delas, dois corpos de sorriso no rosto, e olhar apaixonado, ambos com um punhal cravado no mesmo exacto local do ventre que lhes rasgava a roupa, a vida e a lógica, jaziam inertes, era o corpo dele e o dela. Há frente do imponente palco onde os seus corpos eram personagens principais, apenas cadeiras, belas, confortáveis, e até ortopédicas, mas vazias, tantas que do palco não se via onde acabavam, quanto ao resto do teatro, a talha de ouro bem trabalhada disfarçava, o que os olhos nunca puderam ver.
Ele questionava quase tudo, questionava a vida, para que estava ele aqui afinal de contas, se os outros, se tudo o resto era mesmo real, ou apenas informação fantasiosa e manipulada por algo superior que ele desconhecia. O próprio belo ele questionava, tantas coisas tão belas, tudo é belo à sua maneira equacionava ele, seja o bater de asas ordenado dos pássaros que passam em mágica coordenação, seja o voo solitário de um só pássaro que parece lá do alto saber todos os segredos que realmente importam. Seja um rosto com um sorriso jovem, aberto e perfeita dentição, seja um sorriso de velho, que até já deveria estar gasto, e mesmo assim permanece aberto, com muitos dentes em falta e rugas entranhadas, mas belo. Seja um ar ora miserável e profundamente infeliz, ora enigmático e pensativo, e na mesma profundamente infeliz. E por mais que se tentasse e aprofundasse estas discussões com ele, não havia forma de lhe mudar tal perspectiva, porque ele até no que de mais díspar existe do belo, a fealdade, até nisso ele via beleza. Via-a nos feios, gordos, incapacitados, velhos acabados e restantes miseráveis, que mesmo assim sorriam, ou os casais, que bonitos ou feios, inteligentes ou não, após algum tempo de convivência em comum, vêm que o outro é tantas vezes ridículo, cheira mal, tem cólicas, fica doente, espirra e tem comichão de forma que nada tem de eloquente ou cativante, e mesmo assim continuam juntos e dizem querer continuar, e é o conjunto que é belo, não cada uma das fracções. Assim como belas não são as entranhas do pássaro, mas o pássaro inteiro que voa sobre nós, e aliás, acabei por vos mentir à pouco, ele não questionava o belo em si, mas sim o propósito do belo.
Apenas não questionava a matemática, achava-a supérflua e ao mesmo tempo complexa, e por isso desnecessária, ou melhor, não se metia com ela porque acreditava não a poder vencer, mas não se preocupava muito com isso. Que é a matemática senão a resposta objectiva, complexa e superficial, para tudo aquilo que é subjectivo, simples e profundo, inquiria ele, só não lhe retirava o “estatuto” de bela, porque equiparava-a às estrelas numa noite limpa de tudo, até de lua, brilhantes, tão brilhantes, que pareciam chamar por quem as realmente percebesse, ou até mesmo quisesse, apenas esse “alguém” nunca seria ele, seria ela.
Ela era aquilo a que vulgarmente, de forma simplista, e porque não dizê-lo, injusta, se chama de mulher objectiva e da ciência. Adorava a matemática e a física, não questionava tudo, mas arranjava explicações lógicas e normalmente demonstradas por cálculos, para tudo o que se propunha, custava-lhe até imaginar diga-se, que pudesse ser de outra forma. Os números, a matéria, os átomos, as equações e inequações, as cisões e as fusões, pareciam ser a única forma de tudo ter algum sentido, valor, e credibilidade. Claro que também sonhava, mas até aí incluía a matemática e a matéria como co-factores essenciais, olhava para as estrelas em certas noites e imaginava-se a viajar até lá, calculava mentalmente o tempo que demoraria para dezenas de distâncias e velocidades diferentes, e meticulosamente pensava como poderia ocupar o tempo de forma conveniente, num espaço restrito, artificial e sem gravidade, ou como seria se viajasse à velocidade da luz, quão mais devagar passaria proporcionalmente o tempo a tal velocidade, o que aconteceria com tudo o que importa, a matéria. Olhava para as flores e o que primeiro lhe ocorria era a sequência de fibonacci, espreitava os beija-flor e ia para casa a pensar que combinação de potencialidades permitia que as suas asas batessem daquela forma avassaladora, ou sobre a real aleatoriedade do caótico movimento dos electrões, tudo o que era caótico e por natureza incontrolável, assustava-a.
Ambos, da sua modesta forma, queriam sempre saber mais, aprofundar mais, escrever e calcular mais, perceber ou definir o propósito de tudo, e assim, como de tantas outras formas, os outros tentam fazer, conquistar o mundo, até que se conheceram.
Todos se moviam por qualquer coisa, fuga às responsabilidades, vontade de conquistar corpos alheios, imperativo de mal dizer, contrariados e por isso arrastando os pés e desprezando a alma, ou pelo álcool e afins tragédias. Pouco espaço sobrava no recinto apertado e decorado com faixas, flores de papel, luzes intermitentes e contínuas de cores diversas. O calor era intenso, mesmo à noite, e por isso a cada passo de dança ou simples andar, os corpos suavam, e a roupa, por norma já pouca, colava-se.
-Hey, não fujas com o chapéu.
-Se não fugir posso ficar com ele?
-Não, fica-me melhor a mim.
-Depende da perspectiva, mas fico com ele 5 minutos e pago-te um copo pode ser?
-Claro que não, não me vais pagar um copo, isso é machismo que eu dispenso, e tentativa de me impressionar descarada, e já agora, não te afastes sem me devolver o chapéu, mais de 10 passos é fugir.
- Não, não é machismo, machismo seria, e mesmo assim poderia ser outra coisa, que a loucura e insensatez são culpadas de quase tudo, querer pagar-te um copo sem receber nada, que não fosse a tua companhia, em troca. Mas receberia o chapéu por 5 minutos, e sinceramente não sei onde poderia aqui alugar um chapéu destes por menos que um copo. Quanto a te querer impressionar ou agradar, não me parece que tirar um chapéu e propor um copo em troca fosse a melhor, ou tão pouco uma mediana forma, de agradar a alguém, se realmente te quisesse impressionar teria apenas tocado no teu chapéu quando à pouco ainda estavas de costas e distraída, e quando sentisses o toque e enfim te virasses, diria impressionado que já que te agradava andar com um chapéu padrão tigresa numa noite destas, devias pelo menos colocá-lo um pouco mais para cima na cabeça, para que não te tapasse, a ti, a visão de um mundo contagiado por sentidos, e a quem te vê, o verde mais belo, mais forte, mais decidido, que eu alguma vez vi num olhar. Depois, quando estivesses, talvez surpreendida, talvez quase assustada pela surpresa, ou talvez apenas a decidir que expressão tentar aparentar para esconder o que ainda não era altura para sequer pensar, dir-te-ia para olhares para o céu, para a lua cheia que brilha alta hoje, e perguntar-te-ia se sabias que numa noite destas as luzes da festa e da cidade escondem um céu quase azul, mesmo à noite, culpa da própria lua, rezando baixinho para que dissesses que não. Não por desejar que não o soubesses realmente, mas apenas porque isso facilitaria o pretexto para te convidar para por um pedaço de tempo sairmos da festa e irmos os dois juntos até à areia da praia agora finalmente deserta do outro lado da ponte, ver o azul de um luar assim. Quanto aos 10 passos não te preocupes, apenas darei passos na tua direcção, pelo menos enquanto não te devolver o chapéu.
- E porque não o fizeste, porque não disseste nada disso?
- Porque realmente nunca te quis agradar, ou porque sou tímido, e um idiota.
- É suposto eu adivinhar?
- É suposto queres descobrir.
Muito encasacados, em cima de um muro já velho onde musgo e pequenas flores sem dono proliferavam, o Sol punha-se sobre o mar neste dia gelado, e mesmo assim o laranja era intenso e de certa forma e lá longe, até quente.
-Fecha os olhos, imagina que o mundo é só nosso por um instante, donos, senhores, e todos poderosos.
-Hum, para quê?
-Apenas fecha-os, confia em mim – Beijou-lhe os lábios
Passou cerca de 1 minuto
-Ainda não posso abri-los?
-Quase, quase.
Ouviu-se algo a rebentar
-Mordeu-lhe a bochecha esquerda desta vez – Um feliz ano novo,
-Mas, mas, este ano não íamos poder passar o ano juntos por causa do teu turno de daqui a pouco – Lágrimas, tantas lágrimas iam-lhe correndo pelo rosto, eram, caro leitor, se assim se podem chamar, as lágrimas mais felizes do mundo.
Pequenos flocos de neve iam caindo sobre eles, apesar de na linha do horizonte sobre o mar se ver ainda o ténue avermelhado da despedida do Sol de Inverno.
-Bem sei que ainda faltam 6 horas agora, e nunca te prometi nada de eterno, nada para sempre, nem tu a mim, bem sei também que esta data em si, para mim, nada significa, e para ti arrisco dizer que ainda menos ou igual, mas celebremos nós o ano novo antecipado de um calendário cristão, ou apenas mais uma hora, que agora passou, não podia deixar de o passar contigo hoje.
-Passou a mão pelos olhos ainda em lágrimas, lágrimas não pela surpresa em si, nem tão pouco pela data ou pretexto em si, mas sim por começar a perceber, por um convicto e mágico saber que lhe percorria as entranhas, que seria para sempre, um para sempre sem promessas ou ilusões, apenas para sempre – Sabes, já nada é como antes de te conhecer, porque antes não acreditava que isto, exactamente isto que me percorre agora, e por isso lhe chamo isto, existisse mesmo, bem sabes que nunca acreditei em almas gémeas e afins conjugações, e que não foi fácil ao inicio, éramos por dentro tão diferentes, agora somo-lo apenas por fora, e sim, esquece qualquer promessa, tudo o que não prometemos sabemos, o que prometemos, inventamos, e eu sei.
-Almas gémeas, só champagne e chocolate, foi o que trouxe para nós agora.
-Primeiro o champagne ou o chocolate?,
Chovia torrencialmente naquela tarde de fim de Outono, muitas árvores estavam já despidas no parque, e o manto de folhas algumas alaranjadas outras quase cor de sangue ia flutuando apoiado numa camada de água com a altura de 2 dedos. Eles estavam abrigados num pequeno alpendre no meio do parque, estavam apenas de roupa de interior com a pele arrepiada e molhada, e iam ouvindo a Tiro ao Álvaro num gira-discos que os acompanhava.
- Ela tremia de frio e os dentes batiam por vezes uns nos outros enquanto falava – Antes, os números quânticos e os átomos eram o que me preenchia de facto, precisava de perceber, de investigar, de demonstrar, era a única forma de mostrar que estava realmente viva, agora finalmente percebo Camões “Amor, é ter com quem nos mata lealdade”, a ânsia de vida facilmente engana quem não ama.
- O nariz dele pingava e também ele tremia de frio – Eu questionava tudo, agora tenho tudo, mesmo o amor, que sempre questionei, e ainda hoje não percebo, eu tenho, por uma vez tenho-o, e que felizardo que sou em tê-lo uma vez.
- Atchim,
Era fim de Verão e estava um calor infernal e abafado, mesmo agora, depois do Sol se ter já posto no horizonte, tinham passado ambos a tarde numa encosta abrigados do Sol pelas muitas árvores que quase se sobrepunham e abrigados do mundo por 2 horas de caminhada pela falésia, os corpos nus de tez morena repousavam agora misturados com milhares de margaridas de 21 pétalas e algumas borboletas azuis.
-O Sol desapareceu,e só agora os aviões deixam um rasto laranja no céu, daqui a pouco será noite e apenas teremos as luzes variáveis, a mesma lua e as mesmas estrelas de sempre, depois antes do Sol nascer, outros aviões irão deixar um rasto laranja no céu, e por fim nascerá o Sol, branco. Assim se passaria o dia visto daqui, e depois, com o final do dia tudo se repetiria, só a vida é transitória e efémera.
- E por isso talvez apenas o amor seja eterno, o amor, rouba a vida a troco de eternidade, o próprio céu, o próprio rasto dos aviões só ficam da cor do Sol quando o Sol se põe.
Mais ou menos neste momento fecharam-se as cortinas que mostravam os seus corpos às cadeiras vazias, alguém lá estivesse a assistir, que nunca mais os veria.
Ele questionava quase tudo, questionava a vida, para que estava ele aqui afinal de contas, se os outros, se tudo o resto era mesmo real, ou apenas informação fantasiosa e manipulada por algo superior que ele desconhecia. O próprio belo ele questionava, tantas coisas tão belas, tudo é belo à sua maneira equacionava ele, seja o bater de asas ordenado dos pássaros que passam em mágica coordenação, seja o voo solitário de um só pássaro que parece lá do alto saber todos os segredos que realmente importam. Seja um rosto com um sorriso jovem, aberto e perfeita dentição, seja um sorriso de velho, que até já deveria estar gasto, e mesmo assim permanece aberto, com muitos dentes em falta e rugas entranhadas, mas belo. Seja um ar ora miserável e profundamente infeliz, ora enigmático e pensativo, e na mesma profundamente infeliz. E por mais que se tentasse e aprofundasse estas discussões com ele, não havia forma de lhe mudar tal perspectiva, porque ele até no que de mais díspar existe do belo, a fealdade, até nisso ele via beleza. Via-a nos feios, gordos, incapacitados, velhos acabados e restantes miseráveis, que mesmo assim sorriam, ou os casais, que bonitos ou feios, inteligentes ou não, após algum tempo de convivência em comum, vêm que o outro é tantas vezes ridículo, cheira mal, tem cólicas, fica doente, espirra e tem comichão de forma que nada tem de eloquente ou cativante, e mesmo assim continuam juntos e dizem querer continuar, e é o conjunto que é belo, não cada uma das fracções. Assim como belas não são as entranhas do pássaro, mas o pássaro inteiro que voa sobre nós, e aliás, acabei por vos mentir à pouco, ele não questionava o belo em si, mas sim o propósito do belo.
Apenas não questionava a matemática, achava-a supérflua e ao mesmo tempo complexa, e por isso desnecessária, ou melhor, não se metia com ela porque acreditava não a poder vencer, mas não se preocupava muito com isso. Que é a matemática senão a resposta objectiva, complexa e superficial, para tudo aquilo que é subjectivo, simples e profundo, inquiria ele, só não lhe retirava o “estatuto” de bela, porque equiparava-a às estrelas numa noite limpa de tudo, até de lua, brilhantes, tão brilhantes, que pareciam chamar por quem as realmente percebesse, ou até mesmo quisesse, apenas esse “alguém” nunca seria ele, seria ela.
Ela era aquilo a que vulgarmente, de forma simplista, e porque não dizê-lo, injusta, se chama de mulher objectiva e da ciência. Adorava a matemática e a física, não questionava tudo, mas arranjava explicações lógicas e normalmente demonstradas por cálculos, para tudo o que se propunha, custava-lhe até imaginar diga-se, que pudesse ser de outra forma. Os números, a matéria, os átomos, as equações e inequações, as cisões e as fusões, pareciam ser a única forma de tudo ter algum sentido, valor, e credibilidade. Claro que também sonhava, mas até aí incluía a matemática e a matéria como co-factores essenciais, olhava para as estrelas em certas noites e imaginava-se a viajar até lá, calculava mentalmente o tempo que demoraria para dezenas de distâncias e velocidades diferentes, e meticulosamente pensava como poderia ocupar o tempo de forma conveniente, num espaço restrito, artificial e sem gravidade, ou como seria se viajasse à velocidade da luz, quão mais devagar passaria proporcionalmente o tempo a tal velocidade, o que aconteceria com tudo o que importa, a matéria. Olhava para as flores e o que primeiro lhe ocorria era a sequência de fibonacci, espreitava os beija-flor e ia para casa a pensar que combinação de potencialidades permitia que as suas asas batessem daquela forma avassaladora, ou sobre a real aleatoriedade do caótico movimento dos electrões, tudo o que era caótico e por natureza incontrolável, assustava-a.
Ambos, da sua modesta forma, queriam sempre saber mais, aprofundar mais, escrever e calcular mais, perceber ou definir o propósito de tudo, e assim, como de tantas outras formas, os outros tentam fazer, conquistar o mundo, até que se conheceram.
Todos se moviam por qualquer coisa, fuga às responsabilidades, vontade de conquistar corpos alheios, imperativo de mal dizer, contrariados e por isso arrastando os pés e desprezando a alma, ou pelo álcool e afins tragédias. Pouco espaço sobrava no recinto apertado e decorado com faixas, flores de papel, luzes intermitentes e contínuas de cores diversas. O calor era intenso, mesmo à noite, e por isso a cada passo de dança ou simples andar, os corpos suavam, e a roupa, por norma já pouca, colava-se.
-Hey, não fujas com o chapéu.
-Se não fugir posso ficar com ele?
-Não, fica-me melhor a mim.
-Depende da perspectiva, mas fico com ele 5 minutos e pago-te um copo pode ser?
-Claro que não, não me vais pagar um copo, isso é machismo que eu dispenso, e tentativa de me impressionar descarada, e já agora, não te afastes sem me devolver o chapéu, mais de 10 passos é fugir.
- Não, não é machismo, machismo seria, e mesmo assim poderia ser outra coisa, que a loucura e insensatez são culpadas de quase tudo, querer pagar-te um copo sem receber nada, que não fosse a tua companhia, em troca. Mas receberia o chapéu por 5 minutos, e sinceramente não sei onde poderia aqui alugar um chapéu destes por menos que um copo. Quanto a te querer impressionar ou agradar, não me parece que tirar um chapéu e propor um copo em troca fosse a melhor, ou tão pouco uma mediana forma, de agradar a alguém, se realmente te quisesse impressionar teria apenas tocado no teu chapéu quando à pouco ainda estavas de costas e distraída, e quando sentisses o toque e enfim te virasses, diria impressionado que já que te agradava andar com um chapéu padrão tigresa numa noite destas, devias pelo menos colocá-lo um pouco mais para cima na cabeça, para que não te tapasse, a ti, a visão de um mundo contagiado por sentidos, e a quem te vê, o verde mais belo, mais forte, mais decidido, que eu alguma vez vi num olhar. Depois, quando estivesses, talvez surpreendida, talvez quase assustada pela surpresa, ou talvez apenas a decidir que expressão tentar aparentar para esconder o que ainda não era altura para sequer pensar, dir-te-ia para olhares para o céu, para a lua cheia que brilha alta hoje, e perguntar-te-ia se sabias que numa noite destas as luzes da festa e da cidade escondem um céu quase azul, mesmo à noite, culpa da própria lua, rezando baixinho para que dissesses que não. Não por desejar que não o soubesses realmente, mas apenas porque isso facilitaria o pretexto para te convidar para por um pedaço de tempo sairmos da festa e irmos os dois juntos até à areia da praia agora finalmente deserta do outro lado da ponte, ver o azul de um luar assim. Quanto aos 10 passos não te preocupes, apenas darei passos na tua direcção, pelo menos enquanto não te devolver o chapéu.
- E porque não o fizeste, porque não disseste nada disso?
- Porque realmente nunca te quis agradar, ou porque sou tímido, e um idiota.
- É suposto eu adivinhar?
- É suposto queres descobrir.
Muito encasacados, em cima de um muro já velho onde musgo e pequenas flores sem dono proliferavam, o Sol punha-se sobre o mar neste dia gelado, e mesmo assim o laranja era intenso e de certa forma e lá longe, até quente.
-Fecha os olhos, imagina que o mundo é só nosso por um instante, donos, senhores, e todos poderosos.
-Hum, para quê?
-Apenas fecha-os, confia em mim – Beijou-lhe os lábios
Passou cerca de 1 minuto
-Ainda não posso abri-los?
-Quase, quase.
Ouviu-se algo a rebentar
-Mordeu-lhe a bochecha esquerda desta vez – Um feliz ano novo,
-Mas, mas, este ano não íamos poder passar o ano juntos por causa do teu turno de daqui a pouco – Lágrimas, tantas lágrimas iam-lhe correndo pelo rosto, eram, caro leitor, se assim se podem chamar, as lágrimas mais felizes do mundo.
Pequenos flocos de neve iam caindo sobre eles, apesar de na linha do horizonte sobre o mar se ver ainda o ténue avermelhado da despedida do Sol de Inverno.
-Bem sei que ainda faltam 6 horas agora, e nunca te prometi nada de eterno, nada para sempre, nem tu a mim, bem sei também que esta data em si, para mim, nada significa, e para ti arrisco dizer que ainda menos ou igual, mas celebremos nós o ano novo antecipado de um calendário cristão, ou apenas mais uma hora, que agora passou, não podia deixar de o passar contigo hoje.
-Passou a mão pelos olhos ainda em lágrimas, lágrimas não pela surpresa em si, nem tão pouco pela data ou pretexto em si, mas sim por começar a perceber, por um convicto e mágico saber que lhe percorria as entranhas, que seria para sempre, um para sempre sem promessas ou ilusões, apenas para sempre – Sabes, já nada é como antes de te conhecer, porque antes não acreditava que isto, exactamente isto que me percorre agora, e por isso lhe chamo isto, existisse mesmo, bem sabes que nunca acreditei em almas gémeas e afins conjugações, e que não foi fácil ao inicio, éramos por dentro tão diferentes, agora somo-lo apenas por fora, e sim, esquece qualquer promessa, tudo o que não prometemos sabemos, o que prometemos, inventamos, e eu sei.
-Almas gémeas, só champagne e chocolate, foi o que trouxe para nós agora.
-Primeiro o champagne ou o chocolate?,
Chovia torrencialmente naquela tarde de fim de Outono, muitas árvores estavam já despidas no parque, e o manto de folhas algumas alaranjadas outras quase cor de sangue ia flutuando apoiado numa camada de água com a altura de 2 dedos. Eles estavam abrigados num pequeno alpendre no meio do parque, estavam apenas de roupa de interior com a pele arrepiada e molhada, e iam ouvindo a Tiro ao Álvaro num gira-discos que os acompanhava.
- Ela tremia de frio e os dentes batiam por vezes uns nos outros enquanto falava – Antes, os números quânticos e os átomos eram o que me preenchia de facto, precisava de perceber, de investigar, de demonstrar, era a única forma de mostrar que estava realmente viva, agora finalmente percebo Camões “Amor, é ter com quem nos mata lealdade”, a ânsia de vida facilmente engana quem não ama.
- O nariz dele pingava e também ele tremia de frio – Eu questionava tudo, agora tenho tudo, mesmo o amor, que sempre questionei, e ainda hoje não percebo, eu tenho, por uma vez tenho-o, e que felizardo que sou em tê-lo uma vez.
- Atchim,
Era fim de Verão e estava um calor infernal e abafado, mesmo agora, depois do Sol se ter já posto no horizonte, tinham passado ambos a tarde numa encosta abrigados do Sol pelas muitas árvores que quase se sobrepunham e abrigados do mundo por 2 horas de caminhada pela falésia, os corpos nus de tez morena repousavam agora misturados com milhares de margaridas de 21 pétalas e algumas borboletas azuis.
-O Sol desapareceu,e só agora os aviões deixam um rasto laranja no céu, daqui a pouco será noite e apenas teremos as luzes variáveis, a mesma lua e as mesmas estrelas de sempre, depois antes do Sol nascer, outros aviões irão deixar um rasto laranja no céu, e por fim nascerá o Sol, branco. Assim se passaria o dia visto daqui, e depois, com o final do dia tudo se repetiria, só a vida é transitória e efémera.
- E por isso talvez apenas o amor seja eterno, o amor, rouba a vida a troco de eternidade, o próprio céu, o próprio rasto dos aviões só ficam da cor do Sol quando o Sol se põe.
Mais ou menos neste momento fecharam-se as cortinas que mostravam os seus corpos às cadeiras vazias, alguém lá estivesse a assistir, que nunca mais os veria.
domingo, 2 de janeiro de 2011
Cinema Paradiso
Era uma vês, há não muito tempo, um simples soldado que, no decorrer de uma festa da corte, na qual estavam as mais belas donzelas do reino, foi logo cair de amores pela própria filha do rei, que, diga-se, era a mais bonita de todas. Claro que, como em todas as histórias assim, ele declarou-se de imediato a ela, disse-lhe as coisas típicas que se costumam dizer nesses momentos, que estava apaixonado por ela, que ela era o ser mais belo que os seus olhos jamais viram, e que o olhar dela, o simples olhar de tão bonito e profundo lhe causava arrepios quando se poisava nele (bem, se o soldado pensava e sentia mesmo tudo isto na altura em que o disse, isso será analisado daqui a pouco).
A princesa, do alto da sua sincera beleza e presumida importância, disse-lhe que se ele gostava mesmo dela, deveria passar as próximas 100 noites na rua, perto do castelo onde ela vivia, e num local de onde ela o pudesse ver sempre da janela de seu quarto, para saber se ele cumpria realmente a longa espera. E que se ele cumprisse os 100 dias de espera, então aí ela seria sua para sempre. O soldado claro, ficou em êxtase com a possibilidade de assim poder conquistar o coração da sua amada princesa e começou nessa mesma noite a longa espera sentando-se num pequeno banco que trouxera de casa.
Claro que a primeira coisa que ele pensou, logo nessa primeira noite, logo nos primeiros 5 minutos foi que a bela princesa também se sentia loucamente atraída por ele, e que nessa mesma noite iria através de um qualquer estratagema, talvez através de uma espectacular fuga pela pequena janela, pendurando-se nos lençóis que previamente atara à cama para ir descendo e depois saltar caindo directamente nos seus braços, ou simplesmente descendo as escadas e abrindo a porta, iria ter com ele e ambos se amariam loucamente nessa mesma noite. Mas, ela não veio, acendeu uma luz no quarto ainda a noite não ia muito adiantada, pareceu-lhe a ele ver o vulto dela à janela por uns instantes, vulto esse que logo desapareceu, e nada mais se passou nessa noite, nada mais tirando a forte chuva que poucas tréguas lhe deu nessa noite, e que o deixou de tal forma encharcado que ele julgou ter apanhado duas pneumonias na mesma noite, e um pássaro cagou-lhe em cima, que isto quem diz que os pássaros dormem a noite toda é porque nunca passou uma noite na rua à espera de uma princesa. O dia acabou por nascer, acaba por nascer sempre independentemente das pneumonias, e ele foi-se embora.
As noites foram passando, e tudo continuava na mesma, houve uma em que a princesa abriu mesmo a janela do quarto (não chovia nessa noite), e lhe pareceu a ele que ela olhava lá do alto, fixamente para ele por uns instantes, parecia até que gostava dele, mas passado uns instantes saiu, fechou a janela e a luz apagou-se, houve outra noite em que acendeu por duas vezes uma luz no quarto, e por duas vezes pareceu ao soldado ver o seu vulto, e outra noite ainda em que os pássaros lhe cagaram 3 vezes em cima. Há medida que as noites iam passando os sentimentos do soldado pela princesa iam-se alterando, ou, em abono de maior verdade aparecendo, de facto quando ele disse naquela primeira vez que estava apaixonado por ela e tudo o mais, era a atracção física, as hormonas, e a estupidez precoce a falar, mas a solidão das noites, a chuva, o frio, a ânsia, a luz que de vez em quando se acendia, o vulto que por vezes aparecia, a distância, que de ser fisicamente tão insignificante e pequena, se tornava insuportável por ele não a conseguir quebrar, tudo isso fazia com que de certa e muito estranha forma o soldado começasse a gostar mesmo dela, por se fazer difícil, por ser difícil, porque só é difícil quem gosta mesmo de nós, assim pensava o soldado, porque se o irresistível e a paradoxa beleza da vida fossem fáceis, haveria bem mais pessoas felizes ou iludidas pelo menos.
Chegara agora a noite 50, e normalmente a partir deste “marco” seria mais fácil de suportar a espera, pois metade já estava, agora era uma contagem decrescente até poder ter nos seus braços a princesa por quem se apaixonara no chuva, solidão e ânsia das noites longas daquele reino, talvez um dia lhe contasse isso, que foi a espera, e não o baile da corte que fez com que ele soubesse que gostava mesmo dela, talvez não. Bem mas acontece, que depois das noites de temporal, chegou o frio, um frio tão intenso que fazia com que as mãos do soldado estivessem completamente geladas, e agora ele não tinha ninguém para as aquecer, o frio era tanto que parecia até congelar a tal contagem decrescente, e a luz no quarto da princesa que há medida que as noites frias iam persistindo lhe parecia acender-se cada vez menos vezes, de vez em quando julgava ainda que era nessa noite, fosse a 91 ou a 93 que a princesa ia sair do castelo e ir ter com ele, até podia nem lhe dizer uma palavra, mas pelo menos ficaria bem perto dele por uns instantes, aquecendo-lhe as mãos, e a alma, se a houver, mas logo o tremendo frio o trazia de volta para a realidade. Quanto ao tal esquema do lençol pendurado na janela, isso convencia-se ele, é um esquema parvo e louco, e uma princesa não é parva nem louca.
A penúltima noite chegou, e com ela tudo mudou, o soldado depois de tamanha espera e maior angústia, de tanta chuva, de tanto frio, e de mais gelo ainda, percebeu, ou julgou saber, que se ela não viesse nessa penúltima noite ter com ele, mandar-lhe um pequeno bilhete pela janela, ou simplesmente pendurar-se no lençol, e cair-lhe nos braços, seria porque a espera de 5 minutos ou 100 noites, teria sido em vão, porque nunca fora realmente correspondido, nem nos primeiros 5 minutos, nem durante 5 minutos das 99 noites que esperou, e nessa penúltima noite ela até acabou por acender duas vezes uma luz no quarto, uma das vezes ele até viu o vulto dela bem junto do vidro da janela, mas depois logo depois a luz se apagou, essa noite passou e o soldado, reunindo as forças e orgulho que lhe restavam, pegou no banco onde tinha esperado 99 noites, e desapareceu com o nascer do dia e esconder da noite, e assim, com uma forte pneumonia mas sem uma bronquite crónica deixou o reino da princesa para nunca mais voltar.
O que será que teria acontecido se o soldado tivesse esperado aquela última noite, ele não sabe, a princesa talvez, mas as pneumonias curam-se.
A princesa, do alto da sua sincera beleza e presumida importância, disse-lhe que se ele gostava mesmo dela, deveria passar as próximas 100 noites na rua, perto do castelo onde ela vivia, e num local de onde ela o pudesse ver sempre da janela de seu quarto, para saber se ele cumpria realmente a longa espera. E que se ele cumprisse os 100 dias de espera, então aí ela seria sua para sempre. O soldado claro, ficou em êxtase com a possibilidade de assim poder conquistar o coração da sua amada princesa e começou nessa mesma noite a longa espera sentando-se num pequeno banco que trouxera de casa.
Claro que a primeira coisa que ele pensou, logo nessa primeira noite, logo nos primeiros 5 minutos foi que a bela princesa também se sentia loucamente atraída por ele, e que nessa mesma noite iria através de um qualquer estratagema, talvez através de uma espectacular fuga pela pequena janela, pendurando-se nos lençóis que previamente atara à cama para ir descendo e depois saltar caindo directamente nos seus braços, ou simplesmente descendo as escadas e abrindo a porta, iria ter com ele e ambos se amariam loucamente nessa mesma noite. Mas, ela não veio, acendeu uma luz no quarto ainda a noite não ia muito adiantada, pareceu-lhe a ele ver o vulto dela à janela por uns instantes, vulto esse que logo desapareceu, e nada mais se passou nessa noite, nada mais tirando a forte chuva que poucas tréguas lhe deu nessa noite, e que o deixou de tal forma encharcado que ele julgou ter apanhado duas pneumonias na mesma noite, e um pássaro cagou-lhe em cima, que isto quem diz que os pássaros dormem a noite toda é porque nunca passou uma noite na rua à espera de uma princesa. O dia acabou por nascer, acaba por nascer sempre independentemente das pneumonias, e ele foi-se embora.
As noites foram passando, e tudo continuava na mesma, houve uma em que a princesa abriu mesmo a janela do quarto (não chovia nessa noite), e lhe pareceu a ele que ela olhava lá do alto, fixamente para ele por uns instantes, parecia até que gostava dele, mas passado uns instantes saiu, fechou a janela e a luz apagou-se, houve outra noite em que acendeu por duas vezes uma luz no quarto, e por duas vezes pareceu ao soldado ver o seu vulto, e outra noite ainda em que os pássaros lhe cagaram 3 vezes em cima. Há medida que as noites iam passando os sentimentos do soldado pela princesa iam-se alterando, ou, em abono de maior verdade aparecendo, de facto quando ele disse naquela primeira vez que estava apaixonado por ela e tudo o mais, era a atracção física, as hormonas, e a estupidez precoce a falar, mas a solidão das noites, a chuva, o frio, a ânsia, a luz que de vez em quando se acendia, o vulto que por vezes aparecia, a distância, que de ser fisicamente tão insignificante e pequena, se tornava insuportável por ele não a conseguir quebrar, tudo isso fazia com que de certa e muito estranha forma o soldado começasse a gostar mesmo dela, por se fazer difícil, por ser difícil, porque só é difícil quem gosta mesmo de nós, assim pensava o soldado, porque se o irresistível e a paradoxa beleza da vida fossem fáceis, haveria bem mais pessoas felizes ou iludidas pelo menos.
Chegara agora a noite 50, e normalmente a partir deste “marco” seria mais fácil de suportar a espera, pois metade já estava, agora era uma contagem decrescente até poder ter nos seus braços a princesa por quem se apaixonara no chuva, solidão e ânsia das noites longas daquele reino, talvez um dia lhe contasse isso, que foi a espera, e não o baile da corte que fez com que ele soubesse que gostava mesmo dela, talvez não. Bem mas acontece, que depois das noites de temporal, chegou o frio, um frio tão intenso que fazia com que as mãos do soldado estivessem completamente geladas, e agora ele não tinha ninguém para as aquecer, o frio era tanto que parecia até congelar a tal contagem decrescente, e a luz no quarto da princesa que há medida que as noites frias iam persistindo lhe parecia acender-se cada vez menos vezes, de vez em quando julgava ainda que era nessa noite, fosse a 91 ou a 93 que a princesa ia sair do castelo e ir ter com ele, até podia nem lhe dizer uma palavra, mas pelo menos ficaria bem perto dele por uns instantes, aquecendo-lhe as mãos, e a alma, se a houver, mas logo o tremendo frio o trazia de volta para a realidade. Quanto ao tal esquema do lençol pendurado na janela, isso convencia-se ele, é um esquema parvo e louco, e uma princesa não é parva nem louca.
A penúltima noite chegou, e com ela tudo mudou, o soldado depois de tamanha espera e maior angústia, de tanta chuva, de tanto frio, e de mais gelo ainda, percebeu, ou julgou saber, que se ela não viesse nessa penúltima noite ter com ele, mandar-lhe um pequeno bilhete pela janela, ou simplesmente pendurar-se no lençol, e cair-lhe nos braços, seria porque a espera de 5 minutos ou 100 noites, teria sido em vão, porque nunca fora realmente correspondido, nem nos primeiros 5 minutos, nem durante 5 minutos das 99 noites que esperou, e nessa penúltima noite ela até acabou por acender duas vezes uma luz no quarto, uma das vezes ele até viu o vulto dela bem junto do vidro da janela, mas depois logo depois a luz se apagou, essa noite passou e o soldado, reunindo as forças e orgulho que lhe restavam, pegou no banco onde tinha esperado 99 noites, e desapareceu com o nascer do dia e esconder da noite, e assim, com uma forte pneumonia mas sem uma bronquite crónica deixou o reino da princesa para nunca mais voltar.
O que será que teria acontecido se o soldado tivesse esperado aquela última noite, ele não sabe, a princesa talvez, mas as pneumonias curam-se.
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