segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Luxúria

Namoravam há alguns anos, namoro sério de juras de amor, gostavam um do outro, talvez se amassem, não interessa, eram jovens e ainda sem grandes compromissos, talvez aquele namoro fosse o compromisso mais sério de ambos. Ele era metódico, demasiado metódico (quase palerma), oferecia-lhe flores, sempre no dia em que faziam anos de namoro, no dia de aniversário dela, e no dia de São Valentim, em mais nenhum dia “porque amo-te e me apetece(s)” , e nunca vermelhas. Ela, bem…ela era feliz, ele não era exactamente um romântico, mas gostava dela, preocupava-se com ela, dizia-lhe que a amava, sorria-lhe, talvez a amasse, eles passavam horas à conversa e depois faziam amor e diziam “eu amo-te”, ou faziam amor e depois passavam horas à conversa.
Os amigos invejavam-nos e as famílias aplaudiam-nos, nunca se lhes tinham conhecido grandes discussões, iam às festas onde estava concentrada toda a nata da cidade, ambos bons vivants, passeavam a dois à beira mar e faziam piqueniques ao fim de semana, é bela a natureza e é tão bom passear a dois, tinham fotos e suporte digital de beijos e carícias trocados em Paris, Viena e Veneza, e mais que isso, tinham recordações, memórias do que tinham medo de perder, amavam-se, pelo menos segundo a definição de ambos da palavra amor, mas faltava-lhes algo, ela sabia o que era, ele ainda não.
Em uma noite, em que ele lhe disse que não ia dormir a casa, o motivo era uma viagem de trabalho, ela sorriu e foi-se arranjar, deixou o cabelo por secar depois do banho, deixou-o solto e ia secando e encaracolando lentamente, usava um vestido já com alguns anos mas que só por uma vez tinha vestido, só o tinha usado naquela noite de que agora se recordava, era completamente preto, tão preto com os seus cabelos ainda por secar, sobressaia-lhe o peito e acariciava-lhe uma pequena parte das pernas, calçou uns sapatos também eles pretos, de salto alto mas não em agulha, de salto alto mas sem exagerar e ser vulgar, não colocou brincos ou colares, apenas uma leve maquilhagem, acabava de adornar os lábios com um batom vermelho por estrear, quando ele chegou a casa e a viu.
Percorreu-lhe a espinha algo de novo, um irresistível desejo de carne, de lhe saborear cada centímetro de corpo, aquele vestido irrecusável, o cabelo dela que lhe molhava as costas deixadas a nu, o batom vermelho vivo em perfeito contraste com a tez clara dela…, mas porque estaria ela assim hoje?, acabou por perguntar-lhe, ela disse, “sabia que virias”…….”como poderias saber?”…..” porque precisava que viesses”, naquele momento, e porque o amor, aliado da carne, a isso leva, acabaram as dúvidas e interrogações, ele fixou-lhe os lábios e depois o olhar, trincou-lhe os lábios, ela mordia-lhe o pescoço como nunca o tinha feito, agora ela sentia toda a sua carne apetecida e desejada, tiraram toda a roupa um do outro e deixaram-se cair no chão frio da sala, ela entrelaçou as pernas no pescoço dele, e ele ia beijando, trincando, precisando de todo o seu corpo, ela, agora em êxtase de desejo, colocou-lhe as mãos sobre as omoplatas e arranhou-lhe as costas de tez morena, com força suficiente para delas escorrerem dois finos fios de sangue que iam brotando no chão, nos ombros finos e claros dela denotava-se com precisão a marca dos dentes dele, e todo o corpo dela os lábios dele tinham marcado não cessando de desejar, ambos gemiam agora, e como lhes sabia bem o gemer um do outro, sabia-lhes a uma compreensão que não pode ser compreendida, a uma satisfação que só em corpos marcados é atingida, e que só com vermelho se pode atingir, e agora os corpos suados e marcados de ambos eram um só, não como já tantas vezes tinham sido, não fazendo amor como das outras vezes, mas fazendo sexo, reinava o desejo pela carne um do outro, como se por uma vez o amor fosse apenas pretexto, e no final,
-Amoro-te
-Amoras-me?
-Sim, porque as amoras eu posso trincar.

Na manhã seguinte, 3 chamadas não atendidas e uma mensagem no telemóvel dela, ela sorriu, e apagou o número.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

A aldeia das casas de pedra

Todas as aldeias têm as suas crenças, vida própria que o passar do tempo lá criou, fora de lá todo um mundo, lá dentro, dentro de cada um que aquece as mãos na lareira nas noites frias, ou vai aos bailaricos nas noites de Agosto, todo o seu mundo. A aldeia das casas de pedra não era excepção, tinha vida e era personagem na vida de quem, por lá ter nascido, lá vivia, o pequeno jardim, a fonte, a capela, a taberna do Srº Augusto, o recital dos bailaricos, todos eles ganhavam vida, porque por todos eles passou o tempo, e o tempo não muda, mas mudam eles, mudamos nós. Estávamos no século XIX e o progresso ainda não tinha chegado à aldeia, não havia luz nas lâmpadas ou aquecedores a gás, havia velas que iluminavam e lareiras que aqueciam, em vez da televisão, sobravam as histórias, não havia número nas casas, não eram precisos, todos se conheciam e não chegavam cartas à aldeia, restava a memória.
Em esta aldeia de casas frias de pedra não havia esquecimento, todos eram sempre lembrados, quem na aldeia nascia, na aldeia morria, sempre assim tinha sido, os outros, estavam de passagem. Sofia nascera na aldeia e tinha agora 18 anos, a sua pele era clara e suave, o seu cabelo, liso e completamente preto, os seus olhos eram verdes, não esverdeados mas naturalmente verdes, de um verde tão intenso, que os tornava irresistíveis, era bela, mas era surda, nunca ninguém tinha nascido surdo na aldeia, não a compreendiam, sustentavam-na por obrigação, porque tinha nascido na aldeia, muitos diziam que estava amaldiçoada, a sua família dava-lhe comida e um tecto para ficar, era bela, mas os rapazes afastavam-se, tinham medo, medo da maldição dela, é a única coisa que leva um rapaz a fugir de uma bela rapariga, o medo do que não consegue explicar.
Um dia chegou um médico à aldeia, vinha ver o padre que há já duas semanas estava de cama, as pessoas da aldeia pouco acreditavam nos médicos, mas por vezes ele vinha à aldeia, desta vez não era o médico do costume que chegava, um novato vinha em sua vez, dizia que o outro estava doente e que se chamava Diogo. Dizia a verdade, o médico, já velho, estava doente e mandara-o em sua vez, Diogo tinha acabado o curso de medicina à poucos meses e sempre se tinha mostrado brilhante e um amante do conhecimento e da ciência, chegado à aldeia, auscultou o padre, mediu-lhe a temperatura e sem entrar em explicações alongadas deu-lhe 2 comprimidos que ninguém sabia o que eram e deixou-lhe uma caixa, também de comprimidos, que explicou ao padre serem para tomar um por dia, sempre depois de almoço, e sempre durante 7 dias, e disse-lhe que iria melhorar. Depois de poucas palavras proferidas e sempre de rosto fechado, preparava-se para abandonar a aldeia, quando se cruzou com Sofia, de imediato se sentiu atraído por ela, afinal, ela era bela, e ele, sem hesitar dirigiu-se a ela dizendo “olá desconhecida”, ela primeiro fixou-lhe os lábios para tentar entender o que ele dizia e ela não ouvia, depois utilizando uma caneta já velha e um pedaço de papel escreveu “olá desconhecido, não te ouço, nasci surda, tento perceber-te lendo-te os lábios, não te falo, por nada ouvir nunca falei”.
Diogo, leu a mágoa e dor de não poder ouvir e não saber falar, naquele pequeno pedaço de papel, e pegando também num pedaço de papel que tinha no bolso do casaco e em uma caneta, deixou de falar e escreveu, “ não tem mal, escrevamos então, tudo o que pode ser dito pode ser escrito, o que não se pode escrever também ainda não inventaram palavras para o dizer”, ao ler isto, Sofia corou, pela primeira vez o seu coração batia acelerado, Diogo era bem-parecido, mas havia rapazes na aldeia bem mais bonitos que ele, era o seu conhecimento, cultura e vivências que o distinguiam dos outros, ele não acreditava em bruxarias, percebia qual o problema de Sofia, ele não tinha medo dela, e ela era bela, e agora, bastando dois pedaços de papel trocados, ela sentia-se compreendida, sentia-se atraída e protegida. Sofia acabou por pegar em mais um pedaço de papel e responder a Diogo,
- “Por nunca ter ouvido não sei o que perco por não ouvir, mas sei o que sofro por os outros saberem que não ouço, têm medo de mim, têm medo da diferença e respondem-lhe com indiferença”
-“ Por não ouvires apenas perdes o que acreditas perder, vês o mundo e tens livre-trânsito para sentir, por vezes gosto de acreditar que só inventaram as palavras porque se tinha preguiça de ler um olhar”
- “ É belo o que escreves, e agradeço-te, cada palavra, mas custa-me a crer, a forma como me olham, assusta-me, faz-me duvidar, do que sou, do que posso ser”
-“ Por um momento esquece os outros, lembra-te de ti, és bonita, perspicaz, sonhas acordada, tens uma vida por viver, se os outros têm medo, eles que vivam metade”
-“ Hum…passando a acreditar nas palavras que me escreves, e porque não tenho preguiça, joguemos então”
-“Joguemos? Joguemos a quê?”
-“Terás que adivinhar meu querido”

Ela fixou-lhe o olhar, Ele corou e desviou os olhos, Ela insistia, Ele com um leve sorriso, olhou de soslaio, percebendo que ela continuava, inspirou fundo e retribuiu o olhar, De um lado olhos azuis quase cinza, Do outro olhos verdes, absoluta e desconcertantemente verdes, Ela acabou por sorrir, mordiscou o lábio e olhou para baixo, para as mãos dele, tremiam um pouco, Ele agora com um sorriso carente de certezas olhava-a hesitando, Ela voltou a fixar-lhe o olhar, agora os lábios dela desenhavam uma expressão indecifrável, entre um sorriso que começava a denotar covinhas nas bochechas, e desejo, agarrou-lhe suavemente as pontas dos dedos, Ele beijo-a.

Sofia estava feliz agora, ela ainda não amava Diogo, conhecera-o hoje, e em um dia não surge amor, mas ainda sem o amar, já precisava dele, ele por ter estudos e perceber a ciência, compreendia-a e por não ser cego, queria-a, afinal, ela era bela.

- “ Se pudesse parar o tempo, parava-o agora.”
- “ Porquê agora? Porque não amanha ou depois de amanha?”
- “ Porque desde que me lembro, sempre soube o amanhã, por cada dia que passava, o mesmo desprezo, o mesmo medo, a mesma solidão, contudo, o amanha que eu sabia ontem, não é o que tenho hoje, agora que te vi, que te conheci, que te beijei, percebi que não quero voltar a saber o amanha.”
- “ Eu se pudesse parar o tempo, não o parava, se o tempo parasse deixaria de haver memória, não teríamos a recordação dos olhares, dos lugares, dos sorrisos, dos cheiros, das lágrimas e histórias, e seria triste não ter memória.”
- “ Nunca percebi muito bem as regras do tempo, imagina, tu conheces alguém, nesse momento sentes-te atraído, podes aos poucos ir conhecendo essa pessoa, com o passar das horas e dos dias podes começar a gostar dessa pessoa, podes acabar por te apaixonar por ela, com o tempo pode surgir amor, pode durar uns meses ou uns anos, ou pode durar para sempre, se é que existe sempre, mas para acabar com tudo, para acabar com uma, duas ou 3 vidas, basta um segundo.”
- “ Nunca tinha pensado assim, dói pensar assim, mas é verdade, e por isso podíamos roubar o dia de hoje ao tempo”
- “ E como o faríamos?”
- “ Fazendo deste dia só nosso, não contando a ninguém o que vivemos hoje, nem ao tempo, o tempo não nos pode tirar o que não sabe que temos.”
-“ Um dia só nosso, não do tempo, ninguém para o criticar, apreciar, julgar, nada para um dia o apagar, porque não…”
- “ Assim posso escrever-te a verdade, ninguém para a julgar, durará para sempre, e a verdade é simples, olhei para ti há pouco, e achei-te bela, agora olho para ti, e preciso de ti”
-“ A verdade…só se inventou a verdade porque surgiram as mentiras, antes disso, não se pedia a verdade, não se pediam beijos de amor.”
- “Não?”
-“ Não era preciso” (beijo-o)

Assim passaram horas, beijando-se, acariciando-se, escrevendo-se, conhecendo-se, foram caminhando até ao pé de um pequeno rio que passava perto da aldeia, o sol começava a pôr-se, estavam sozinhos, em absoluto silêncio, Sofia acabou por dizer a Diogo que a entristecia, neste momento, não ouvir o som da água a ranger nas pedras, ou dos pássaros que recolhiam às árvores para dormir, Diogo disse-lhe que quando olhava para ela, quando tocava nela, deixava de ouvir cada um desses simples sons, ela sorriu, o sol ia desaparecendo lentamente, a água do rio passava constante, polindo eternamente as arestas das pedras, talvez pelo encanto do momento, talvez pela feliz inocência da juventude, talvez porque Sofia precisasse de Diogo, ou talvez por ela ser bela, acabaram por trocar juras de amor eterno, acabaram por se amar naquela noite, e por adormecer no mais absoluto silêncio da noite, pouco antes do nascer do Sol ela acordou, estava sozinha.
Ontem Diogo ao ver Sofia logo desejou ter sexo com ela, Sofia, ao conhecê-lo, não o amou logo, não podia, desejou que ele a levasse da aldeia, que a levasse para longe do medo, da repulsa, da desaprovação dos outros, ele conseguiu o que queria, ela não. Hoje Sofia voltou a saber o amanhã, estava triste, como sempre estivera, mas não amargurada com Diogo, ele por perceber a ciência e a fisiologia humana, compreendeu-a, não teve medo, ela era bela, desejo-a por isso. Entre eles, a inteligência e desejo de ambos, o sebastianismo dele, a beleza dela, levaram a momentos de encanto, palavras de romance, juras de amor, acabou em sexo, nunca houvera amor, o amor não surge num dia e meia-noite. Ela, por nunca ter sido amada, pela indiferença, medo e repulsa dos outros, não conseguia odiar aquele que por saber a verdade, se correspondeu com ela à distância de um olhar, a encantou e deixou-se encantar, e a quis por meia-noite, mas que por ter medo e ser animal, a deixou para sempre sem avisar.
Sofia continuou na aldeia, nunca falou de Diogo a ninguém, tudo permanecia na mesma, o medo, aliado do tempo ia vencendo aos poucos mas sem retorno, apesar de ela não viver além de sobreviver, o tempo não tinha misericórdia, nunca tem, passava por ela, e com ela trocava mais um dia de tristeza por menos um dia de vida, Sofia nunca saiu da aldeia, talvez se tivesse saído, tivesse conhecido outros rapazes, outros homens, alguns teriam por certo medo da surdez que não compreendiam, talvez todos os outros se interessassem somente pela sua beleza, por seu corpo, somente por meia-noite, ou talvez surgisse amor, amor não só entre amantes, também talvez o amor da amizade de desconhecidos e desconhecidas que ela nunca conheceu, mas ela, talvez por não mais acreditar, ou talvez por também ela ter medo, nunca saiu da aldeia.
Com o passar dos anos, foi envelhecendo, surgiam rugas, cabelos brancos dentes amarelados e depois escurecidos, outros desconhecidos foram passando pela aldeia, mas agora, tantos anos passados, ela já não era bela, acabou por passar os seus últimos dias, como todos os outros da sua vida, tristes e vazios, todos esses miseráveis dias condicionados pelo mesmo, pelo medo, o único que assim não foi, roubou-o ao tempo, e assim no final de tudo, foi tudo o que lhe restou, quanto ao Diogo, ele não era da aldeia, nunca o foi, dele não há memória, de onde ele era, as casas já não eram de pedra.

domingo, 30 de novembro de 2008

O rapaz das palavras bonitas

No longínquo mundo dos anjos, tudo é estaticamente perfeito, não há lágrimas ou sorrisos, apenas tempo, eterno tempo, onde nunca o óbvio se torna incerto, porque não há óbvio, há certezas, o amanha nada acrescenta ao hoje, apenas subtrai, subtrai um dia, ao eterno tempo que falta para acabar o eterno tempo que lhes resta. Neste longínquo mundo, tanto a dor como o amor são miragens de desejo, pois não há amor sem dor, e não há dor na perfeição.
Neste mundo habitado somente por anjos, tudo é belo, mas somente paisagem e não vida, os rios nunca galgam as margens, as flores não nascem, crescem ou morrem, simplesmente estão lá e de lá não saiem.
A única função dos anjos, é observar o nosso mundo, e desde sempre eles vêem tudo o que fazemos, apenas vêem, não censuram ou interferem, nem tão pouco interagem, vêem, e somente vêem o essencial, e o essencial sempre continua na mesma e não mudou desde os primórdios da antiguidade, manteve-se nos 10 séculos de trevas, continua agora entre nós, e não muda se somos ricos ou pobres, cultos ou incultos, loucos ou ponderados, e o essencial é a forma como olhamos os outros, e nos vemos a nós próprios ao espelho ou na água corrente e transparente de um rio.
E de tantos verem o que não vivem, desejam deixar de poder sonhar que um dia vão viver, tal é a dor de sonhar eternamente, ter por uma vez na eternidade um período limitado de tempo, durante o qual o único limite imposto à liberdade é a incapacidade humana de alguma vez ser livre.
No entanto, num dia perdido nos meandros do tempo, um dos anjos, desafiado por desígnios superiores a poder viver a vida que ousava sonhar, saiu do seu mundo e veio até ao nosso, por um mês apenas, mas nesse mês não teria o limite que sempre observara e nunca compreendera, e que nos impede a nós humanos, de sermos livres.
Chegou ao nosso mundo sob a forma de uma figura masculina que aparentava ter 20 anos e feições de eterno menino, de olhos verdes que espelhavam sonho e desejo, emoldurados por espessas sobrancelhas pretas, assim como pretos eram também os cabelos levemente encaracolados que remoinhavam ao vento, e a barba de 3 dias rebelde e desalinhada. Não tinha nome e por isso podia ser quem quisesse, não tinha compromissos pré estabelecidos, e por isso podia fazer o que quisesse, mas tinha vida, e por isso tinha tempo finito, tempo em que os dias passam, são únicos e irrepetíveis, e por não mais voltarem, cada dia que passa é sempre menos um dia na vida que resta.

Quando chegou trazia em si o desejo de finalmente ser livre, de por não se prender a nada ter sempre tudo e nunca ter saudades do que por nunca ter sido dele, nunca o deixaria, e durante 25 dias assim foi de facto. Viajou à boleia com desconhecidos, e com os mesmos desconhecidos passou horas à conversa, mergulhou no mar salgado e imprevisível, participou em bailaricos e romarias de aldeias perdidas, que por nem nos mapas da globalização existirem, seriam para sempre só de quem por lá por um instante viveu, ou uma vida passou, nessas aldeias dormiu com belas raparigas, invocando tantas vezes em vão a misteriosa palavra “amo-te”, seguindo depois sem olhar para trás, porque amo-te era apenas uma palavra misteriosa, e quando se desprendia e procurava outros desconhecidos, outros mares e aldeias perdidas, não sentia saudade ou nostalgia, pois por sempre se lembrar daqueles fragmentos de vida, eles para sempre lhe pertenceriam, e assim ele era livre, porque quando estava sozinho, não pensava no que já não voltaria a ter, mas no que sempre dele seria.
Mas à 6 dias atrás, no meio de mais uma das aldeias perdidas no mundo e ainda sem coordenadas definidas nos GPS, cruzou-se com mais um ser Humano, que seria para sempre apenas mais um ser Humano, se não fosse ela, ela, ou se não fosse ele, ele, mas ela era ela e ele era ele, e então ele desorientado e confuso por ainda sem ter percebido um dos maiores mistérios da vida humana saber o estar já a viver, fixou o olhar dela e ainda hesitante mas sabendo não poder hesitar disse…

-Olá…

-Olá…pareces perdido…

-Estava talvez desencontrado...perdido nunca estive

-Não…?

-Para estar perdido tinha que alguma vez ter sabido o que procurava, para sempre ter estado desencontrado, a solidão tem servido

-Hum…mas nunca soubeste o que procuravas?

-Não…mas agora percebo…

-Percebes o quê?

- A absoluta necessidade de por vezes desejar que um momento dure para sempre, assim como nunca se viu uma borboleta chorar por não conseguir mais voar, julgava que também para nós, a recordação do que o que um dia foi nosso, nos consolaria a saudade do que um dia já o não será, erro meu…

- Podes apaixonar-te mil vezes em Paris, mas para sempre as trocarias todas para que a primeira não tivesse acabado…

-E no entanto “we´ll always have Paris…”

-Parece-me que também já viste o Casablanca

- É o filme que apesar de não se passar em Paris, mais me faz desejar Paris…

-E que fazes por aqui? Tão longe de Paris, tão perto de nada.

-Estava de passagem, agora estou perto de ti…

-E onde estarás tu amanha?

-aqui se tu aqui estiveres ou algures acolá se para algures acolá tiveres ido

-Hum…devo então dizer-te até amanha desconhecido?…

-Deves sim…mas não agora...diz-me até amanha quando já for amanha

- É estranha a forma como falamos conhecendo-nos à tão pouco

-Hum…assim como é estranho lembrar-me que ainda não sei o teu nome

-Sim é verdade….ao começar a falar contigo passou-me a lembrança de que nunca fomos apresentados…chamo-me Joana, e tu ?

-Miguel…

“Miguel” e Joana continuaram a falar, falaram de filmes, falaram de vida, falaram de trivialidades, mas mais do que falar o olhar de um nunca largava o olhar do outro como se lessem no olhar o que as palavras em vão se esforçavam para dizer, até que…

-Será que à algo que explique o que sinto quando te olho sem te conhecer, como se por magia não fosse preciso conhecer-te para saber ter-te?

-Seria tão bom ter explicações para te dar…mas é tão melhor não as ter e apenas olhar-te…

-Olhas-me de uma forma que só estranho por não querer que pare

- Olho-te assim porque uma vez será a última que nos vamos olhar, e depois só me restará lembrar-te e imaginar como teria sido se…

-se …?

Beijo-a…

Nessa noite, quando se despediu e lhe disse até amanha, “Miguel” já sabia que não a poderia voltar a ver, porque por vezes é mais fácil despedirmo-nos para sempre, dizendo até amanha, porque hoje uma mentira magoaria o coração de Joana amanha, mas daqui a uns dias a verdade iria doer bem mais, ele que estava destinado a viver para sempre, só imaginava como o amanhã seria perfeito se não tivesse que partir, mas “se” é conjugação condicional, e conjugações condicionais não passam de pequenas palavras que dão às almas apaixonadas a esperança de mudar o mundo.
Durante essa noite “Miguel” foi então até à taberna da aldeia, onde se sentou bem ao fundo junto à lareira, e vendo o fogo consumir calmamente pedaços de madeira, roubando-lhe a cor, o carbono e a orgânica, só para que por breves fragmentos de tempo eles formassem uma belo e dinâmico equilíbrio com o fogo, aquecendo as mãos e a alma dos que estavam em redor, para depois, na inevitabilidade da chama se apagar serem esquecidos, porque ninguém quer saber das cinzas que restam, então nesse momento “Miguel” soube o que escrever antes de partir,

Joana,
Sou um viajante que conheces-te de viagem, parto daqui a umas horas, não porque tenha que partir, mas porque não consigo ficar, ontem só desejava que o dia não acabasse, mas acabou, e tenho medo de que se ficar mais um dia já não consiga partir. Se ficasse, poderia ver-te amanha e talvez ter-te para sempre, quando partir, apenas sei que não vou voltar, e que nunca te vou esquecer, serás o que poderia ter sido e não foi, assim como toda a minha vida passou sempre ao lado do que poderia ter sido, e por isso se tornou no que agora é.
Sei que não compreendes porque já não estarei contigo amanha, talvez nunca venhas a compreender, e me aches um cobarde por isso, talvez eu seja mesmo um cobarde por isso, mas se por uma vez acreditares em tudo o que ficou por dizer entre nós, então aí saberás que te amei, mesmo antes de poder amar-te,

Porque não há despedida romântica que não soe a falsidade, apenas adeus, apenas para sempre,


“Miguel” dobrou o seu pedaço de despedida em 2 partes, dirigiu-se ao balcão e calmamente pediu à taberneira para o entregar a Joana amanhã, a taberneira intrigada com a atitude e serenidade dele, perguntou-lhe de qual Joana ele estava a falar, e “Miguel” falando agora com um misto de doçura e dor que transparecia na doçura disse apenas, saberá quando a ver.
Depois saiu da taberna, e com lágrimas nos olhos mas determinação nas pernas, saiu da aldeia, não sabia para onde ia, sabia no entanto para onde nunca mais podia voltar, era noite de luar, e longe da luz das cidades o céu brilhava límpido e sem constrangimentos, então ele já longe o bastante da aldeia para não a ver quando olhava para trás, deitou-se no chão e na mais absoluta escuridão apenas olhou aquele céu, era lindo, mas para ver beleza estática e longínqua, ele tinha tido a eternidade, e tê-la-ia de novo em poucos dias, mas a beleza só vale a pena quando partilhada, porque precisamos de a partilhar com quem amamos, agora “Miguel” percebia finalmente o que nos impede de sermos livres, chama-se amor, e faz com que tudo valha a pena.
Tudo o que “Miguel” escreveu naquela taberna, junto à lareira, eram premissas de mentira, para cada mentira uma razão, para a verdade a escuridão, ele era sim um viajante, mas estava cansado de viajar, queria assentar, queria amar, não podia, restavam-lhe 5 miseráveis dias entre nós, podia ter escolhido passá-los com Joana, mas não seria justo para ela, talvez Joana pensasse para sempre que ele era um cobarde à procura de uma aventura de uma noite, “Miguel” não tinha escolha, Joana tinha, e na sua não escolha, escolheu por ela e foi embora, e depois daquela noite de lágrimas trocadas com as estrelas, nunca mais foi visto na aldeia, nunca mais ninguém o viu em sitio algum, talvez se tenha escondido do mundo até à hora da partida não sei, mas sim ele vê-nos, assim como sempre viu a vida de Joana, apenas viu, apenas vê.
Na manhã seguinte a taberneira passou pela casa de Joana e lá deixou o papel dobrada em duas partes, ela era a única Joana da aldeia,a taberneira sempre soube quem ela era, e por isso lá deixou a despedida de “Miguel” e voltou para sua Taberna, sem perguntas, sem explicações, como sempre eram as coisas naquela aldeia, quando pouco depois Joana leu aquele desengonçado pedaço de papel, e sem pensar apenas saiu e correu, procurou-o nas aldeias mais próximas ainda nesse dia, e por todo o local que conhecia nos meses seguintes, só lhe queria dizer que queria viajar com ele, que o amava e para ele não ir sem ela, na sua busca desesperada nunca ouviu sequer por uma vez falar dele, acabou sim por o achar um cobarde, é esse o poder que o tempo tem sobre um amor perdido no tempo, acaba por tornar amor em desespero, desespero em raiva, e raiva em recordação, recordação não da raiva mas do amor.
Joana voltou à aldeia, e assim como as outras raparigas da aldeia acabou por casar com um dos rapazes da aldeia, depois do casamento acabou por ir viver com seu marido para a cidade, onde ambos passaram a vida a trabalhar todo o dia fechados em escritórios , tiveram dois filhos,algum dinheiro e um bom apartamento e portanto segundo os parâmetros da sociedade de consumo pode dizer-se que foram felizes, e Joana para sempre recordou “Miguel” apenas como, o rapaz das palavras bonitas.

sábado, 15 de novembro de 2008

Diálogo entre mim e mim mesmo com traços de esquizofrenia

-Conheci uma rapariga sabias?

-E qual é o espanto por teres conhecido uma rapariga pá?

- bem …é que… eu gosto dela.

-Gostas dela como, meu?

-Não sei, apenas gosto, ela é especial…

-És tão lamechas tu…

-Talvez seja sim mas…

-Mas…?

-Mas gosto dela…

-E já lhe disseste isso a ela?

-Não tenho coragem…, mal a conheço… e além disso sabes bem que eu sou um tanto ao quanto tímido no que toca a declarações…

-Pois és, és…mas tens que me explicar como é que uma rapariga que mal conheces te faz o coração cobrar horas extra…

-Talvez seja por querer conhecê-la melhor…

-E tu tens mesmo a certeza que a queres conhecer melhor?

-Eu preciso de a conhecer melhor.

-Precisas?? Mas porquê pá?

-Como seria demasiado lamechas dizer que me abstraio do mundo a pensar nela, digo-te antes que o mundo foge de mim quando sonho com ela.

-Soa-me mas é a amor por esses lados, meu…

-Não…Por agora não, como te disse, eu mal a conheço, e podemos desejar o desconhecido, mas apenas isso, desejar…, ninguém ama as estrelas que brilham no céu, mas quase todos as desejamos;)

-Pela maneira como dizes isso até parece que nunca a vais conhecer melhor

-E talvez não mesmo, pelo menos não enquanto não tiver coragem de lhe dizer que gosto dela

- Mas nunca falas-te com ela?

-Já passei horas a falar com ela…falo como ela sobre as trivialidades do dia-a-dia, sobre os nossos gostos, sobre o que éramos no passado e desejamos para o futuro, adoro o modo como nos insultamos mutuamente com “carinhosos jogos de palavras” ou as dissertações que fazemos antes de desligar o telefone, e não consigo resistir à forma de pensar e de falar e de agir e de reagir dela.

-Bem quem te ouvir falar até pensa que essa rapariga não tem defeitos…

-Tem…claro que tem, é teimosa, orgulhosa, nunca dá o braço a torcer, é demasiado perfeccionista e arriscava dizer que por vezes é quase que convencida, mas o que eu estranho é não conseguir deixar de gostar dos defeitos dela, é como se os defeitos dela fossem meras características e ter características é bom;)

-E achas que ela ainda não topou que gostas dela?

-se percebeu não me o disse e eu não tenho coragem de perguntar…

-Devias ter…

-Será que devia?

-Claro que devias pá…

-Sei lá…por vezes soa melhor viver na incerteza de ela poder gostar de mim do que viver com a certeza da resposta dela.

-Mas provavelmente se nunca tiveres coragem de perguntar vais-te arrepender do conforto do teu silêncio.

-Sim, provavelmente,

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

matemática vs vida

Perdoem-me os amantes da matemática e da exactidão dos computadores portáteis, mas eu amo é o que não é exacto e não está previamente descoberto, amo descobrir algo de novo, pensar muito, mas ter a certeza de pouco, viajar ainda mais, saber que existem coisas inevitáveis, mas não ser condicionado por essas variáveis, confiar na memória do meu coração e não em memórias RAM e discos rígidos, perdoem-me os que fazem planos a longo prazo, como se a vida fosse uma gigantesca equação matemática da qual se conhecem previamente todas a variáveis, eu vivo cada dia com a certeza que amanha vou saber mais que hoje, mas sempre sabendo que hoje sei tudo o que preciso, sei sorrir, andar, correr, nadar, ler, dialogar, viajar, sei o quão precioso é tudo o que amo, tudo que tenho e tudo o que sei, e que apenas o que temos nos é imprescindível ter, logo, apesar de saber que amanha vou saber algo mais, que espere o amanha, que eu hoje já cansei de esperar.

Hino ao destino

O que existe e o que não existe está dentro de nós, nós decidimos o que é real, é só uma questão de acreditar.

Por isso te escrevo esta carta, para descobrir se acredito no destino, se tal coisa existir tu vais ler esta carta e por alguma razão vais ser impelida a responder, se não responderes hoje ou amanha ou um dia, é porque o destino não existe, ou pelo menos eu não vou acreditar nele, logo não será real.

Escrevo-te do meio do oceano neste pedaço de papel já gasto, a letra está tão firme e segura quanto as vagas que assolam o “O Imortal” o permitem, a garrafa que serviu de navio à minha crença no destino ainda cheira ao vinho de ontem do jantar, e se estiveres agora com ela nas mãos é porque já atravessou tantas milhas náuticas quantas se podem contar pelos dedos de mil mãos e fintou intempéries enfrentando o desconhecido, para agora a desconhecida que procurava, a segurar nas mãos.

Podes perguntar mil vezes como saberás tu se fui escrita para ti, mas ao leres-me a primeira vez terás a certeza da resposta, pois também tu duvidas do destino, mas tu, quando me tiveres a mim, pedaço de papel usado e embebido em vinho de ontem do jantar, nas tuas mãos terás, o poder de decidir o que é real.

P.S: a minha morada está no verso da folha

Diálogo de uma noite de Outono

-Amas-me?

-preciso-te

-Mas não me amas então?

- Podia dizer que te amo de forma pragmática, carnal, platónica, de todas essas formas e mais uma, ou simplesmente dizer “amo-te”, tantas são as maneiras de dizer que te amo, ao olhar para ti, mas ao invés de tudo isso, digo, preciso-te.

-E porque o fazes?

- Faço-o porque quando olho para ti, amo-te nunca me parece ser o suficiente para dizer o que sinto por ti, e a única palavra que conheço que significa mais que amo-te, é preciso-te.

- Mas como pode uma palavra que não existe, significar mais que amo-te?

- Porque enquanto amo-te significa que me acelera o coração quando estou junto de ti, preciso-te significa que me pára o coração quando estou longe de ti, porque eu vivo em ti. E não, preciso-te ainda não deu provas de que exista, mas quem é que precisa de provas do que o que sente o coração?

-hum….rendo-me, e preciso-te também, mas aquela “mais uma forma de dizer que te amo” não está incluída em preciso-te ainda… (sorriu-lhe, fixou-lhe o olhar, e trincou-lhe a orelha…)